segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A poesia desses tempos






Ezra Pound defendia o nazismo, mas escrevia poesia revolucionária, desconstruindo a própria estrutura sagrada da língua inglesa e misturando técnicas poéticas latino americanas e orientais. Borges era um homem conservador, defendia valores tradicionais da sociedade argentina de Buenos Aires, mas sua literatura era selvática na desconstrução do individualismo e racionalismo.

Drummond batia ponto como funcionário público e nunca fez greve, mas escreveu a Rosa do Povo que traduz uma angústia existencial diante da guerra e dos sistemas totalitários (Este é tempo de partido/tempo de homens partidos). Machado de Assis foi acusado de branqueamento, de nunca divulgar publicamente sua condição étnico-racial (descendente de africanos escravizados), mas foi mordaz na crítica ao sistema escravocrata e ao racismo em contos como Pai contra Mãe, Espelho e crônicas que ironizavam o pós-abolição, apontando que a questão negra não se resolveria tão facilmente numa estrutura racista como a nossa. 

A boa literatura, aquela que fica, independente das ideologias de seus autores, nunca sucumbe a forças reacionárias, não pratica umbiguismo, que é essa mania de se achar o centro do mundo, estando (como no nosso caso) na periferia da periferia, nem se coloca na porta de escolas e universidades para barrar forças juvenis, inexperientes, mas com demandas políticas reais, porque essas forças são poéticas.

 A boa poesia se espraia e entende forças latentes da sociedade, não é departamental, nem municipal, nem estadual flui com as forças da liberdade. Ainda estou esperando ler a poesia e a literatura que será produzida em momentos lúgubres como esse, porque o que ando lendo ainda não irrompeu com a força bruta do asfalto de nossa realidade, aliás só faz se afundar. Precisamos da Rosa do Povo, do Aleph, do primordial e revolucionário, da força da literatura que surge na percepção do artista como "antena da raça" e como antena, captando também seus mais selvagens ruídos. 

Precisamos nos descobrir como Cubas e Casmurro, emaranhado nas redes do indivíduo e da sociedade para, como literatura, narrativa e arte, ser instrumento de força e contestação.

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