terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O DILEMA DO INTELECTUAL NEGRO

WEST, Cornel. O dilema do intelectual negro. In: WEST, Cornel. The Cornel West: reader. Nova York: Basic Civitas Books, 1999, p. 302-315 [Tradução e notas de Braulino Pereira de Santana,Guacira Cavalcante e Marcos Aurélio Souza].



O DILEMA DO INTELECTUAL NEGRO

Cornel West

Este ensaio, escrito em 1985, é uma transcrição mais ampla, de um artigo controverso que publiquei. Tem sido reeditado muitas vezes em variados lugares, especialmente por uma geração mais jovem de intelectuais de todas as matizes. Sua popularidade reflete uma crise profunda de vocação entre intelectuais negros. “Black women intellectuals” de bell hooks - em nosso livro Breaking Bread (1991) - é uma crítica devastadora a este artigo. Recomendo que as pessoas leiam esses dois trabalhos juntos.
 
As peculiaridades da estrutura social americana, e a posição da classe intelectual dentro dela,
fazem do papel funcional do negro intelectual um caso especial. O negro intelectual necessita lidar
intimamente com a estrutura de poder branco, e seu aparato cultural, e com as realidades no
interior do mundo negro de uma só vez e ao mesmo tempo. Mas, para que seja bem sucedido nesse
papel, ele tem de estar ciente de maneira aguda da natureza da dinâmica social americana e como
essa dinâmica monitora os ingredientes de estratificações de classe da sociedade americana.
Consequentemente, o papel funcional do intelectual negro exige dele não poder estar separado
absolutamente nem do mundo branco nem do mundo negro.
Harold Cruse .The Crisis of the negro intellectual.


Tornando-se um intelectual negro

A escolha por se tornar um intelectual negro é um ato de marginalidade auto-imposta, assim como garante-lhe um status periférico dentro e para a comunidade negra. A busca pelo letramento é necessariamente um tema fundamental da história afro-americana e um impulso básico da comunidade negra. Para os negros, porém, assim como para muitos americanos, os usos do letramento são geralmente percebidos mais como benefícios pecuniários substantivos, do que os usos da escrita, da arte e do ensino. As razões pelas quais muitos negros escolhem tornar-se intelectuais sérios são diversas. Em muitos casos, porém, essas razões podem ser traçadas como tendo uma raiz em comum. Uma conversão, tipo experiência com um professor muito influente; ou
seus próprios pares, que o convencem a se dedicar a uma vida de atividades em leitura e escrita; ou a conversão para propósitos de prazer individual, riqueza pessoal, ou melhoria política do povo negro (e com freqüência para outros oprimidos).

A forma como alguém se torna um intelectual negro é altamente problemática. Isso acontece porque os caminhos tradicionais trilhados para se tornar intelectual na sociedade americana, somente há muito pouco têm sido abertos – mas permanecem ainda difíceis. As avenidas principais são a academia e as subculturas letradas: a arte, a cultura e a política. Antes de os estudantes de pós- graduação negros serem aceitos pelas faculdades e universidades brancas de elite, no final dos anos 60, instituições negras seletas serviam como estímulo inicial para o potencial dos intelectuais negros. Mas, com toda honestidade, havia relativamente mais e melhores intelectuais negros antes do que agora. Depois de uma instrução decente numa faculdade negra, onde a auto-estima e auto- confiança eram constituídas, intelectuais negros brilhantes, que se matriculavam em instituições brancas de ponta, eram treinados para serem acadêmicos liberais simpáticos, muitas vezes de estatura renomada. Figuras estelares como W. E. B. Du Bois, E. Franklin Frazier e Jonh Hope Franklin foram produtos desse sistema . Para aqueles intelectuais negros que perdiam oportunidades nessas instituições por razões financeiras ou pessoais, restavam, então, as atividades das subculturas letradas – especialmente em grandes centros urbanos – como escritores, pintores, músicos e políticos, como melhoria educacional não formal. Grandes personalidades, tais como Richard Wright, Ralph Ellisson, James Baldwin foram produtos desse processo.

Ironicamente, a academia e as subculturas letradas contemporâneas apresentam mais obstáculos para jovens negros intelectuais hoje do que há décadas atrás. Isso acontece por três razões básicas. Primeira: as atitudes de acadêmicos brancos na academia diferem daquelas dos seus pares do passado. É muito mais difícil para estudantes negros, especialmente estudantes da graduação, ser levados a sério como intelectuais e acadêmicos em potencial. Contribuem para isso, o ethos administrativo de nossas universidades e faculdades (em que menos tempo é gasto com os estudantes) e as percepções vulgares (racistas), estimuladas pelos programas de ação afirmativa que
contaminam as relações entre estudantes negros e professores brancos.

Segunda: as subculturas letradas estão menos abertas agora para os negros do que estavam há três ou quatro décadas atrás. Isso acontece não porque jornais de vanguarda ou grupos de esquerda são mais racistas hoje, mas, sobretudo, por causa das saídas culturais e políticas radicais, legado do movimento black power; o conflito israelo-palestino e a invisibilidade da África no discurso político americano criaram limites rígidos de demarcação e de distância entre intelectuais negros e brancos. Não é preciso dizer, a presença negra em jornais liberais de maior circulação como New York Review of Books e New York Times Book Reviews é negligente – ou quase não existe. E muitos periódicos de esquerda, tais como Dissent, Socialist Review, The nation e Telos ou publicações acadêmicas de vanguarda, como Diacritics, Salmagundi, Partisan Review e Raritan não são muito melhores. Somente Monthly Review, Boundary 2 e Social Text realizam persistentes esforços em cobrir os assuntos da comunidade negra ou em ter nelas, negros contribuindo de maneira regular. A questão aqui não é meramente apontar a negligência desses jornais (embora isso possa ser feito), mas, sobretudo, tentar focalizar o separatismo racial desses modelos de publicação e as práticas da vida intelectual americana, que são características do abismo entre intelectuais negros e brancos.

Intelectuais negros e a comunidade negra

A falta de infra-estruturas negras para a atividade intelectual resulta em parte da inabilidade dos intelectuais negros em angariar respeito e apoio da comunidade negra – especialmente da comunidade negra de classe média. Além do sentido anti-intelectual da sociedade americana, há uma profunda desconfiança e uma suspeita da comunidade negra em relação aos intelectuais negros.Essa desconfiança e essa suspeita provêm não simplesmente de uma disposição arrogante e soberbados intelectuais em relação às pessoas comuns, mas, mais importante, da recusa generalizada dos intelectuais negros em permanecer de alguma forma visíveis e originalmente ligados à vida culturalafro-americana. As relativas altas taxas de casamentos inter-raciais, o abandono das instituições negras e as preocupações dos produtos intelectuais euro-americanos são frequentemente percebidos pela comunidade negra como esforços intencionais para escapar do estigma negativo da negritude ou como sintomas de auto-rejeição. E o impacto imediato mínimo da atividade intelectual negra sobre a comunidade negra e a sociedade americana consolida percepções comuns da impotência e até mesmo da inutilidade intelectual dos negros. À boa moda americana, a comunidade negra louva esses intelectuais negros que se desdobram em atividades políticas, artísticas e culturais; a atividade intelectual é vista como não possuindo virtudes intrínsecas nem como possibilidade de refúgio e emancipação - mas unicamente como ganho político de curto prazo e status social.

Esta percepção truncada da atividade intelectual é amplamente sustentada pelos próprios intelectuais negros. Dados os constrangimentos da imobilidade social para os negros e as pressões por status e ascendência entre seus pares de classe média, muitos intelectuais procuram principalmente ganho material e prestígio intelectual. Já que esses intelectuais são membros de uma classe média negra, ansiosa por reconhecimento e com fome de status, suas pendências são entendíveis e, por extensão, justificadas, já que muitos intelectuais estão à procura de reconhecimento, poder, status, e, o mais das vezes, riqueza. Para os intelectuais negros essa busca exige deles imersão, volta para si mesmo, ao direcioná-los para uma cultura, e uma sociedade, que degrada e desvaloriza a comunidade negra de onde eles provêm. E, colocando isso de maneira crua, muitos intelectuais negros tendem a cair dentro de dois campos criados por essa situação desagradável: os “bem-sucedidos”, distantes da (e geralmente condescendente com a) comunidade negra e os “mal-sucedidos”, arrogantes dentro do mundo intelectual branco. Ambos os campos, porém, permanecem marginais para a comunidade negra – pendendo entre dois mundos com pouca ou nenhuma base infra-estrutural negra. Entretanto, o intelectual negro “bem-sucedido” capitula, frequentemente de modo acrítico, os paradigmas predominantes e os programas de pesquisa da academia burguesa branca, e o intelectual negro “mal-sucedido” permanece encapsulado dentro dos discursos paroquiais da vida intelectual afro-americana. As alternativas ao pseudo-cosmopolitismo promíscuo e ao provincianismo tendencioso e catártico tomam conta da vida dos intelectuais negros. E a comunidade negra visualiza ambas as alternativas com desprezo e desdém, e com boa razão. Nenhuma dessas alternativas tem tido impacto positivo na comunidade negra. Grandes intelectuais negros, de W. E. B. Du Bois e St Clair Drake a Ralph Ellison e Toni Morrison têm se esquivado de ambas alternativas.

Essa situação tem resultado num maior obstáculo confrontando intelectuais negros: a inabilidade em transmitir e sustentar a exigência de mecanismos institucionais para a persistência de uma tradição intelectual clara, o racismo da sociedade americana, a relativa falta de apoio da comunidade negra e, por isso, o status oscilante dos intelectuais, têm evitado a criação de uma rica herança de trocas, diálogos e intercursos intelectuais. Tem havido grandes avanços para intelectuais negros, mas tais avanços não tomam o lugar da tradição.

Eu sugeriria que há duas tradições de intelectuais orgânicos na vida americana: a tradição da pregação cristã negra e a tradição musical negra performática. Ambas essas tradições, embora indubitavelmente relacionadas à vida intelectual, são de natureza oral, improvisada e histriônica. Elas têm raízes na vida negra e possibilitam precisamente que as formas literárias de atividade intelectual negra careçam de: matrizes institucionais durante muito tempo, e espaciais, dentro das quais há regras de procedimentos aceitas, critérios para julgamentos, critérios para performances avaliativas, modelos de conquistas passadas e emulações presentes e uma sucessão de conhecimento, assim como uma acumulação de realizações soberbas. A riqueza, a diversidade, e a vitalidade da pregação negra e da música negra compartilham fortes contrastes com escassez, até mesmo com a pobreza, da produção intelectual negra letrada. Não há, simplesmente, intelectuais negros que conheçam a fundo habilidades extensivas aos avanços conseguidos por Louis Armstrong, Charlie Parker ou Rev. Manuel Scott – simplesmente como não há intelectuais negros letrados hoje em dia, como Miles Davis, Sarah Vaughan ou Rev. Gardner Taylor. Isso não existe não porque tem havido ou não tem havido intelectuais negros de primeira ordem, mas, antes de tudo, porque sem canais fortes para sustentar as tradições e as grandes conquistas, fica impossível.

E, pra ser honesto, a América negra tem ainda que produzir um intelectual letrado e poderoso, com exceção de Tonni Morrison. Há, de fato, alguns soberbos - Du Bois, Frazier, Ellison, Baldwin, Hurston - e muitos outros bons. Mas nenhum pode se comparar aos grandes pregadores negros, especialmente os músicos.

O que é mais perturbador sobre a atividade intelectual negra letrada é que, como ela envolveu, bem devagar, a tradição cristã negra e interagiu mais intimamente com os estilos e formas euro-americanos seculares, parece que com isso, no final do século XX, a maturação pudesse ter acontecido. Como estamos nos referindo aos últimos anos deste século, a atividade intelectual negra letrada tem declinado tanto em quantidade como em qualidade, e como eu notei logo antes, isso acontece primeiramente por causa da relativa grande integração negra dentro da América capitalista pós-industrial, com suas universidades burocratizadas, de elite, faculdades “meia-boca” insensíveis, escolas secundárias decadentes que pouco têm a ver e pouco confiam no potencial dos estudantes negros como intelectuais de fato. Não é preciso dizer, a situação difícil do intelectual negro é inseparável daquela da comunidade negra – especialmente da comunidade negra de classe média – na sociedade americana. E somente uma transformação fundamental da sociedade americana pode possibilitar uma mudança de situação da comunidade negra e do intelectual negro. Não obstante o meu próprio ceticismo cristão quanto aos sistemas totalizantes para a mudança, disciplinado pelos meus profundos sentimentos socialistas, quanto a uma democracia radical e a arranjos culturais e socioeconômicos libertários, eu prossigo dizendo que é preciso focar questões mais amplas sobre formas, e questões mais específicas, ao acentuar a quantidade e a qualidade da atividade intelectual negra letrada nos EUA. Esse foco pode tomar a forma de um esboço em quatro modelos para a atividade intelectual negra que pretende promover a cristalização de infra-estruturas para a atividade intelectual. 

O modelo burguês: o intelectual negro como humanista

Para os intelectuais negros, o modelo burguês de atividade intelectual é problemático. Por um lado a herança racista – aspectos dos efeitos de exclusão e repressão das instituições acadêmicas brancas e das bolsas de estudos humanísticas – coloca os intelectuais negros na defensiva: há sempre a necessidade de afirmar e defender a humanidade do povo negro incluindo sua habilidade e capacidade para raciocinar logicamente, pensar coerentemente e escrever lucidamente. O peso dessa fronteira, inescapável para estudantes negros na academia branca, tem sempre determinado o conteúdo e o caráter da atividade intelectual negra. De fato, a vida intelectual negra permanece muito preocupada com tal defensiva, com os intelectuais negros bem sucedidos sempre orgulhosos, por ser aprovados pelos brancos e aqueles não bem sucedidos, geralmente desprezados pela rejeição branca. Isso diz respeito especialmente de maneira aguda à primeira geração de intelectuais negros aceita como professores e acadêmicos dentro de universidade e faculdades da elite branca, fenômeno amplo pós-1968. Somente com a publicação de memórias íntimas desses intelectuais negros e de seus estudantes teremos narrativas absorventes de como essa defensiva minava por dentro a sua atividade intelectual e a sua criatividade dentro dos contextos acadêmicos brancos.

Apesar dessas batalhas ainda terem sido pessoalmente dolorosas, eles têm lutado, dado o meio racista da vida acadêmica intelectual americana. Essas batalhas continuarão, mas com menos conseqüências negativas para a geração jovem por causa das lutas empreendidas pelos primeiros desbravadores negros.

Por outro lado, o estado de sítio que violenta a comunidade negra requer dos intelectuais negros uma dimensão prática de seu trabalho intelectual. O prestígio e o status, tanto quanto habilidades e técnicas fornecidas pela academia burguesa branca, resultaram num atrativo para que a tarefa estivesse a seu alcance e na ênfase na dimensão prática abraçada por muitos intelectuais negros, descuidada da sua persuasão ideológica – muito mais do que o estereótipo do intelectual americano pragmático. Isso acontece não simplesmente por causa dos estilos de vida e da busca pelo poder ou das disposições orientadas para o status de muitos intelectuais negros, mas por causa do seu relativo pequeno número, que os força a desempenhar múltiplos papéis, em face da comunidade negra além de intensificar sua necessidade por auto-afirmação – a tentativa de justificar para eles mesmos que dadas tais oportunidades únicas e privilégios, eles estão passando seu tempo como podem – que sempre resultam em interesses ativistas e pragmáticos. 

A chave do modelo burguês é a legitimação e a titulação acadêmica. Sem certificados próprios, grau e posição, o modelo burguês perde a razão de ser. A influência e o atrativo do modelo burguês sustentam o sistema acadêmico americano; os intelectuais negros ainda acreditam na efetividade do modelo burguês: somente se eles possuírem titulação e legitimidade suficientes, isso dará acesso para seletivas redes e contatos que podem facilitar o impacto negro nas políticas públicas. Isso parece ter sido o objetivo-alvo da primeira geração de intelectuais negros treinados pelas instituições brancas de elite (embora não se permitisse a esses intelectuais ensinarem lá), dados seus interesses predominantes nas ciências sociais. O problema básico do modelo burguês é que ele é existencial e intelectualmente ridicularizado por intelectuais negros. É existencialmente desacreditado por não gerar somente ansiedades defensivas por parte de intelectuais negros, como também serve para que eles prosperem. 

A necessidade do topo na hierarquia e o racismo profundamente arraigado funcionam através de bolsas humanísticas burguesas, que não podem oferecer aos intelectuais nem ao seu próprio ethos os recortes conceituais, por direcioná-los a uma postura defensiva. E os fardos da inferioridade intelectual nunca podem ser colocados no terreno do oponente – por tentar fazer somente intensificar as ansiedades de um lado. Por conseguinte, o próprio terreno deve ser visualizado como parte e parcela de uma forma antiquada de vida empobrecida, colocada nos termos do discurso contemporâneo. O modelo burguês limita o intelectual naquilo que é propenso a adotar paradigmas que prevaleçam predominantemente acríticos na academia burguesa, por causa das pressões das tarefas práticas e dos tratamentos diferenciados. Todos os intelectuais passam de alguma forma por um estágio de treinamento, no qual eles aprendem à língua e o estilo das autoridades, mas são sempre vistos como talentosos marginalizados, podendo ser excessivamente encorajados, ou enganosamente desencorajados, a examinar paradigmas cuidadosamente. Julgados marginais pelas autoridades, esse meio ambiente hostil resulta na supressão de suas análises críticas e limita o uso de suas habilidades de uma forma considerada legítima e prática.

Apesar de suas limitações, o modelo burguês é inescapável para muitos intelectuais negros. Por causa dos discursos pedantes e iluminados sobre a nação, que se dão em instituições acadêmicas brancas e por causa de muitos intelectuais significativos que ensinam nesses lugares. Muitas das universidades e faculdades de elite permanecem ainda como escolas de alto poder educacional, aprendizado e treinamento, principalmente, devido a amplas pesquisas de tradições civis que proporciona o tempo de ócio e atmosfera necessária para sustentar o empenho de intelectuais sérios. Por outro lado, há alguns intelectuais negros autodidatas sérios, que sempre têm um escopo que impressiona, mas lhe faltam chão e profundidade. Os intelectuais negros precisam ser legitimados pela academia burguesa (ou por seus pares negros).

A titulação e a legitimação negra podem proporcionar uma posição segura na vida intelectual americana, e infra-estruturas negras para a atividade intelectual podem ser criadas. Hoje em dia, há uma pequena, mas significativa, presença negra dentro das organizações acadêmicas burguesas brancas, e essa presença está apta a produzir jornais e pequenos periódicos. O passo seguinte é por institucionalizar amplamente a presença de intelectuais negros, como a sociedade de filósofos negros de Nova Iorque tem feito, ao publicar jornais amparados nessa disciplina (cruciais para as carreiras de professores promissores), ainda que relevantes para outras disciplinas. É necessário ser notado que uma infra-estrutura para atividade intelectual negra precisa atrair personalidades de qualquer matiz ou cor. A crítica literária negra e especialmente os psicólogos negros estão a frente dos outros intelectuais negros no que diz respeito a jornais tais como Black American Literature Forum, College Language Association e o Journal of Black Psychology.

A legitimação e o lugar acadêmico negro também podem resultar no controle negro sobre uma porção ou participação significativa dentro de infra-estruturas brancas mais amplas para a atividade intelectual. Isso ainda não ocorre em grande escala. É necessária mais representação negra nos editoriais de amplos jornais significativos, como a presença do intelectual negro também deve ser permitida. Esse processo é mais lento e tem menos visibilidade, dada a hegemonia ainda do modelo burguês, ele precisa ser perseguido por aqueles que são inclinados a isso.

O modelo burguês é, de alguma maneira, fundamental e definitivamente mais parte do problema do que da solução em relação aos intelectuais negros. Já que vivemos de alguma forma nossas vidas diárias e paulatinamente dentro desse sistema, todos nós que fazemos crítica ao modelo burguês precisamos tentar transformá-lo de alguma forma de dentro da academia burguesa branca – para intelectuais negros aliados a intelectuais progressistas não negros isso não significa criar e aprimorar infra-estruturas para atividades intelectuais negras.

O modelo marxista: o intelectual negro como revolucionário

Entre muitos intelectuais negros há uma reação radical às limitações severas do modelo burguês (e da sociedade capitalista) – ao adotar, a saber, o modelo marxista. A adoção desse modelo, certamente, satisfaz necessidades básicas da inteligência negra: a necessidade por prestígio social, por engajamento político e envolvimento organizacional. O modelo marxista também proporciona adentrar as subculturas intelectuais xenofóbicas, disponíveis contra os intelectuais negros. Esse modelo privilegia a atividade dos intelectuais negros e promove seu papel profético. Como Harold Cruse pontuou, tal prerrogativa é altamente circunscrita, e raramente acentua a dimensão teórica da atividade intelectual negra. Em resumo, o marxismo, privilegiado pelos intelectuais negros, cheira a condescendência, que confina os papéis proféticos dos negros a somente porta-vozes e organizadores, e raramente para aqueles que se permitem essas funções, como pensadores criativos que autorizam atenção crítica séria. Não é acidental que um relativo e amplo número de intelectuais negros, atraídos pelo marxismo do final dos anos 60, ainda não produziram uma grande teoria marxista negra. Somente Black Reconstruction de W. E. B. Du Bois (1935), Caste, Class and Race de Oliver Cox (1948), e, em algum grau, The Crisis of the Negro Intellectual (1967) de Harold Cruse são também candidatos a tal designação. Isto acontece, não por causa da ausência de talento do intelectual negro no campo marxista, mas sim por causa da ausência do tipo de tradição e comunidade (incluindo uma intensa troca crítica) que permitiria que tal talento florescesse.

Contrastando rigidamente com o modelo burguês, o modelo marxista nem gera defesa para o intelectual negro nem proporciona um aparato analítico adequado para políticas públicas de curto prazo. O modelo marxista, certamente, rende auto-satisfação ao intelectual negro, que com freqüência inibe seu crescimento; isso também acentua os contrastes da estrutura social com direção de maneira pouco prática, ao assegurar oportunidades conjunturais. Esta auto-satisfação resulta mesmo na submissão dogmática e uma mobilidade ascendente dentro de formações partidárias sectárias ou pré-partidárias, ou uma colocação marginal numa academia burguesa equipada por uma retórica marxista perversa e, às vezes, uma análise insatisfatória, discursivamente divorciada de dinâmicas integrais, realidades concretas e possibilidades progressistas para a comunidade negra. A preocupação com os contrastes da estrutura social tende a produzir projeções irracionais e frias ou discursos pessimistas e paralisantes. Ambas as projeções, e pronunciamentos, têm muito a ver com
a auto-imagem dos intelectuais negros marxistas, tanto quanto com o prognóstico para a libertação
negra.

Sempre se afirmou que o “marxismo é a falsa consciência da inteligência burguesa radical”. Para os intelectuais negros, o modelo marxista funciona de uma maneira mais complexa do que a sua formulação loquaz permite. Por um lado, o modelo marxista é libertário para os intelectuais negros naquilo que proporciona uma consciência crítica e uma atitude de superação aos paradigmas burgueses dominantes e aos programas de pesquisa. O marxismo proporciona papéis atrativos para os intelectuais negros – papéis de liderança ampla e geralmente visíveis, e incute novos sentidos e uma urgência ao seu trabalho. Por outro lado, o modelo marxista está debilitado para os intelectuais
negros, por causa das necessidades catárticas por satisfazer a tendência por sufocar os primeiros desenvolvimentos da consciência e das atitudes críticas dos negros.

O modelo marxista, apesar de suas imperfeições, é mais parte da solução do que parte do problema para os intelectuais negros. Isso porque o Marxismo é um “rio de fogo” – o purgatório – em nossos tempos pós-modernos. Os intelectuais negros necessitam ultrapassá-lo e chegar a bom termo com ele e, criativamente responder para ele se a atividade intelectual é uma busca de nível de reconhecimento, de sofisticação, e de refinamento. 

O modelo foucaultiano: o intelectual negro como céptico

Como a vida intelectual ocidental está mergulhada em uma crise profunda, e como os intelectuais negros estão se tornando muito mais profundamente integrados dentro da vida intelectual - ou dentro de “uma cultura de cautela e discurso crítico” (como disse o saudoso Alvin Gouldner ) - um novo modelo parece despontar no horizonte. Este modelo, baseado no trabalho influente do saudoso Michel Foucault, rejeita inequivocadamente o modelo burguês e evita o modelo marxista. Isso constitui uma das mudanças intelectuais mais entusiastas dos nossos dias: o projeto foucaultiano de nominalismo histórico. Esta investigação detalhada das relações complexas de conhecimento e poder, discurso e política, cognição e controle social, impulsiona os intelectuais a repensar e a redefinir sua auto-imagem e sua função na contemporaneidade.

O projeto e o modelo foucaultianos são atraentes para os intelectuais, primeiramente porque tocam nas dificuldades pós-modernas para os negros, configuradas pela xenofobia excessiva do humanismo burguês, predominante em toda a academia, a minguada atração para o reducionismo ortodoxo e para as científicas versões do marxismo e a necessidade de reconceitualização, concernente à especificidade e à complexidade da opressão afro-americana. Os sentimentos profundamente anti-burgueses explicitados pelas convicções pós-marxistas e por profundas preocupações com esses sentimentos, vistos como uma outra radicalidade pelos discursos dominantes e tradições, são pouco sedutores para intelectuais negros politizados, cautelosos com as panacéias antiquadas para a libertação negra.

As análises específicas de Foucault da “economia política da verdade” – o estudo das formas discursivas, nas e os meios institucionais pelos quais “os regimes de verdade são constituídos pelas sociedades no espaço e no tempo – resultam numa nova concepção de intelectual. Essa concepção não mais resulta numa transmissão suave “naquilo que de melhor tem sido pensado e dito”, como no modelo humanista burguês ou sem as energias utópicas do modelo marxista. A situação pós- moderna, certamente, requer o “intelectual específico”, que foge das etiquetas da cientificidade, da civilidade e da profecia e, ao invés, aprofunda a especificidade das matrizes das políticas econômicas culturais, dentro das quais os regimes de verdade são produzidos, distribuídos, disseminados e consumidos. Os intelectuais não podem mais se iludir por crenças – tais como os intelectuais marxistas e humanistas - pelas quais eles lutaram em nome da verdade; o problema, certamente é a luta por alcançar um status de verdade e por vastos mecanismos institucionais que dêem conta desse status. As estimadas palavras-código como “ciência”, “gosto”, “tato”, “ideologia”, “progresso” e “liberdade” do humanismo burguês e do marxismo não mais se aplicam a auto-imagem dos intelectuais pós-modernos. Ao invés disso, termos-chave novos tais como “regime de verdade”, “poder/conhecimento” e “práticas discursivas” devem estar na agenda.

A noção foucaultiana do intelectual específico resulta na desmistificação das retóricas conservadoras, liberais e marxistas, as quais restabelecem, restituem e reconstroem as auto- identidades intelectuais, tanto quanto permanecem cativas e apoiadas por formas institucionais de dominação e controle. Essas retóricas autorizam e legitimam, de diferentes maneiras, o status privilegiado dos intelectuais que não somente reproduzem divisões ideológicas entre o trabalho intelectual e manual, mas também reforça mecanismos disciplinares de sujeição e subjugação. Esta auto-legitimação é mais bem exemplificada pelas assertivas feitas por “intelectualóides” que “salva-guardam” as conquistas da cultura intelectual ou “representam” os “interesses universais” de grupos e classes particulares. Na história intelectual afro-americana, idéias tais como “um décimo de talento”, “profetas da incultura”, ”articuladores da estética negra”, “criadores de uma renascença negra” e “a vanguarda de um movimento revolucionário” são disseminadas.

O modelo foucaultiano promove uma forma pós-moderna de esquerdismo e isso encoraja um questionamento intenso e incessante dos discursos do poder carregados à serviço, não da restauração da reforma nem da revolução, mas, de preferência, da revolta. E o tipo da revolta desempenhado pelos intelectuais consiste de uma dirupção do privilégio dos “regimes de verdade” que prevalecem - incluindo seus esforços repressivos nas sociedades dos dias de hoje. Esse modelo engloba inquietações críticas, céticas e históricas de intelectuais negros progressistas e proporciona uma adesão sofisticada pelas distâncias social e ideológicas dos movimentos negros por libertação insurgente. Por conceber o trabalho intelectual como uma prática política de oposição, esse modelo satisfaz a auto-imagem de esquerda dos intelectuais negros, e, ao fazer um fetiche da consciência crítica, aprisiona a atividade intelectual negra dentro da acomodada academia burguesa da América pós-moderna.

O modelo insurgente: o intelectual negro como catalisador crítico e orgânico

Os intelectuais negros podem aprender muito com cada um dos três modelos anteriores, mesmo assim não adotar uma postura crítica em relação a eles. Isto porque os modelos burguês, marxista e foucaultiano necessariamente se relacionam entre si, mas não são discursos adequados para a singularidade das dificuldades dos intelectuais negros. Esta singularidade permanece relativamente inexplorada, e permanecerá assim até que intelectuais negros articulem um novo “regime de verdade” que sejam ligados a eles, que não sejam confinados por eles, que não sejam práticas institucionais indignas, permeadas pela oralidade. Apesar de nosso esforço, eles são constituídos pela física emocional e pela síncope rítmica, pela improvisação multiforme e pelos elementos religiosos, retóricos, antífona da vida afro-americana. Tal articulação depende, em parte da elaboração de infra-estruturas negras que premiem um pensamento negro culto e criativo. Isso demanda um conhecimento íntimo das prerrogativas dos “regimes de verdade” euro-americanos, que podem ser desmistificados, desconstruídos, decompostos de formas tais que fascinem e enriqueçam a vida intelectual negra no futuro. Por ser pioneiro para os pensadores negros, esse novo regime de verdade não pode ser um discurso hermético ou um conjunto de discursos que salvaguardem uma produção negra intelectual e não seja a última moda da escrita negra, que é sempre motivada pelo desejo alardeado pelo establishment branco, intelectual e burguês. Isso é certamente inseparável da emergência de novas formas culturais que prefigurem (e apontem) uma pós-(não anti-) civilização ocidental. No presente, hoje, tal discurso pode parecer mero sonho e fantasia. Nós devemos, então, dar o primeiro passo: insurgência negra e o papel do intelectual negro.

A maior prioridade dos intelectuais negros deve ser a criação ou a reativação das redes institucionais que promovam hábitos críticos de alta qualidade para propósitos, primeiramente de insurgência negra. Uma intelligentsia sem uma consciência crítica institucionalizada é cega, e a consciência crítica que não sirva à insurgência crítica é vazia. A tarefa central dos intelectuais negros pós-modernos é estimular, proporcionar e permitir percepções alternativas e práticas que desloquem discursos e poderes prevalecentes. Isso pode ser feito somente por um trabalho intelectual intenso e por uma prática insurgente e engajada.

O modelo insurgente fundamenta a atividade intelectual negra e vai além dos três modelos anteriores. Do modelo burguês, recupera a herança humanística e o esforço heróico. O modelo intelectual insurgente se recusa ainda a conceber essa herança e esse esforço em termos elitistas e individualistas. Ao invés do herói solitário abarcado pelo gênio isolado e exilado – o intelectual como estrela, celebridade, acomodado – esse modelo privilegia o trabalho coletivo intelectual que contribuí para uma luta e uma resistência comum. Em outras palavras, acentua criativamente o voluntarismo e o heroísmo do modelo burguês, mas rejeita a ingenuidade profunda da sociedade e da história. Do modelo marxista recupera a tensão dos contrastes estruturais, formações de classes eos valores democráticos radicais. O modelo insurgente não tem esses objetivos, formações e valores da economia e dos termos deterministas como meta. Ao invés disso, uma prerrogativa a priori de classe e trabalho industrial, de um posicionamento metafísico, e de uma sociedade socialista relativamente harmoniosa, há uma investida em bloco sob as variedades da hierarquia social e a mediação democrática radical (e libertária) sem a eliminação da heterogeneidade social. Em resumo, o modelo insurgente incorpora, de forma não ingênua, os objetivos estruturais de classe e democráticos do modelo marxista, ainda que admita uma ingenuidade abundante da cultura.

Por último, do modelo foucaultiano, o modelo insurgente capta a preocupação com o ceticismo mundial e a constituição histórica do “regime de verdade” e as operações multifacetadas da relação poder/conhecimento. O modelo insurgente, ainda, não se confina a essa constituição da verdade e essas questões genealógicas, detalhadas para as micro-redes de poder. Ao invés disso capta a ubiqüidade do poder (que simplifica e nivela os conflitos sociais e multidimensionais) e a paralisação das utopias ilimitadas do passado. Proporciona uma possibilidade de resistência efetiva e transformação social significativa. O modelo insurgente focaliza acuradamente a suspeita 9nietszchiana profunda e as descrições opositivas iluminadas pelo modelo foucaultiano, embora reconheça a profunda ingenuidade do conflito social, a luta e a insurgência – uma ingenuidade primeiramente causada pela rejeição de qualquer forma de utopia de qualquer posição teleológica. 

O trabalho intelectual negro e a insurgência negra podem estar enraizados na especificidade da história e na vida afro-americana. Mas eles estão também ligados indissociavelmente a elementos americanos, europeus e africanos que os moldam e os englobam. Tanto o trabalho, quanto a insurgência, está explicitamente particularizado, embora não sejam excludentes – por isso eles são internacionais em delineamentos e práticas. Como seus primeiros precursores históricos – pastores negros e artistas da música negra (com todas as suas forças e fraquezas) – os intelectuais negros precisam se dar conta de que a criação de práticas novas e alternativas resulta do esforço heróico e do trabalho intelectual coletivo e da resistência comum, que englobam e são moldados pelos contrastes estruturais presentes, trabalhos do poder e modo de função cultural. As distintivas formas culturais afro-americanas, tais como os estilos de prece e sermão negros, gospel, blues e jazz, necessitam inspirar, mas não obrigar a produção intelectual negra futura; isto é, o processo pelo qual eles vêm a ser insights valorativos, como também podem servir como modelos não de imitação ou emulação. Não é necessário dizer, essas formas prosperam para uma incessante inovação crítica e uma insurgência concomitante.

O futuro do intelectual negro

A situação difícil do intelectual negro não precisa ser inflexível e lúgubre. Apesar do racismo difuso da sociedade americana e do anti-intelectualismo da comunidade negra, um espaço crítico e uma atividade insurgente podem ser ampliados. Essa ampliação vai ocorrer mais prontamente quando os intelectuais negros se olharem de maneira mais condescendente, focarem as forças históricas e sociais que os constituem, apesar dos meios significativos, porém limitados, da comunidade de onde eles provêm. Uma crítica “auto-relativa” – esquematizada neste ensaio em quatro pontos – que escrutina as posições sociais, os localismos de classe e as socializações culturais dos intelectuais negros, é imperativa. Tal escrutínio não pode ser motivado pela auto- piedade ou auto-satisfação. Essa “auto-relação” certamente pode corporificar o sentido de crítica e de resistência aplicável à comunidade negra, à sociedade americana e à civilização ocidental como um todo. James Baldwin pontuou que o intelectual negro é “um tipo de bastardo do ocidente”. O futuro do intelectual negro não subjaz numa disposição de deferência aos seus pais do ocidente, nem numa busca nostálgica dos antepassados africanos, reside, certamente, numa negação crítica, numa preservação inteligente, e numa transformação insurgente dessa linhagem híbrida que protege a terra e projeta um mundo melhor.














quinta-feira, 14 de setembro de 2017

As eleições da UNEB: o que temos e o que queremos

Prof. Dr. Marcos Aurélio Souza


O cenário recente da política nacional é aterrador. Um presidente ilegítimo aprovando “reformas” antidemocráticas, a toque de caixa, com a aquiescência de um Congresso podre. Expectativa e expectativa. Aguardamos um efetivo “fora Temer”, mas ele vai ficando e ficando, ao sabor do nosso ethos messiânico, sempre e à espera de uma salvação, o que, não raramente, descamba na acomodação e no conformismo geral.

Na administração pública, o conformismo alimenta a malversação, que encontra um motivo para justificar inaptidão e incompetência: o motivo é sempre “estamos em crise”. “Não fazemos nada, não construímos nada, por causa dela”. Crise é um doce na boca de quem não quer fazer, não sabe ou deixa de fazer, o que é esperado pela comunidade.

No debate das eleições para a reitoria da UNEB, realizado em Jacobina, José Bites, que se candidata à reeleição, ao ser perguntado sobre inexecução e devolução de mais de R$ 20 milhões aos cofres públicos (dados do TCE – Tribunal de Contas do Estado), deu uma resposta enviesada e cheia de reticências. Deixar de executar R$ 20 milhões numa época de estabilidade política econômica é, no mínimo, indecente. O que dizer, então, numa época de crise, quando se reclama de falta de verba, de enxugamento e cortes financeiros?

Segundo o reitor Bites a devolução de R$ 13 desses mais de R$ 20 milhões “se dava por conta de que o projeto não batia com as metas definidas posteriormente”, “e que o projeto era uma coisa e o que se discutia com a comunidade era outra coisa”. É necessário dizer que projeto era esse, que metas são essas. Que discussão? Que comunidade? Tudo fica na penumbra. Ninguém sabe o porquê. Nem dos R$ 7 milhões restantes, não mencionados em sua reposta.

Para a comunidade um dinheiro como esse não utilizado para atender suas demandas é, sobretudo, a esperança de dias melhores morrendo na praia. Para todos nós, que pagamos impostos para que a universidade cumpra seu papel social, é a malversação, a falta de disposição e articulação políticas para que o erário tenha seu destino certo, justo e eficiente.

A UNEB se afundou na apatia política para seus funcionários, professores e técnicos também. Na greve docente de 2015, a ADUNEB sofria com o governismo impassível da reitoria no processo de negociação, que já estava muito difícil. Emitiu uma nota denunciando que o reitor “tenta dificultar as atividades do comando de greve, blinda o governo do estado e se distancia dos interesses e dificuldades da comunidade acadêmica da UNEB”.

Em junho desse ano, O SINTEST, sindicato dos técnicos da UNEB, foi surpreendido com um Edital para a contratação de 58 técnicos de Nível Superior, em caráter temporário (REDA), chancelado pela reitoria. Com essa ação, a reitoria desrespeitava uma série de reivindicações da categoria, como a ampliação de carga horária de 30 para 40 horas, pagamento de progressões e implementação de promoções funcionais.

A contratação de REDA impactava muito mais no orçamento universitário do que no atendimento aos direitos dos funcionários efetivos e poderá impedir alterações de carga horária, implementação em folha das progressões e abertura do processo de promoção funcional, demandadas pelos Servidores Técnico-administrativos. Novamente, ficamos sem entender como pode a universidade reclamar de crise se ela gasta mais indevidamente, sobretudo, em detrimento dos trabalhadores.

Estudantes do campus I reclamam da falta de um restaurante universitário (RU) há anos. A atual administração deixou a obra às moscas, parada há meses, material de construção enferrujando e destruído. Enquanto em Feira de Santana, estudantes da UEFS reivindicam refeição gratuita no RU, construído há mais de uma década, no qual gastam R$ 1,00 por refeição, estudantes da UNEB ainda se encontram sem um restaurante universitário, que passou do plano de construção para o abandono completo.

Diversos cursos denunciam a falta de infraestrutura. No ano passado, estudantes de medicina realizaram uma caminhada para reclamar da falta de professores e exigiam condições mínimas para o funcionamento do curso.

Nada ou pouco mudou, desde então. A evasão estudantil é alta, devido, em grande parte, à ausência de uma política de permanência estudantil efetiva. Existe a crise, que é sobretudo política, envolvendo a esfera federal, mas tudo fica pior quando um reitor, por não ter competência e força política, não trabalha para a melhoria das condições da Universidade. Principalmente, quando usa a tônica da crise para mascarar o que se traduz como incompetência administrativa.

Numa eventual reeleição, esperamos que esses problemas sejam corrigidos. Críticas têm, sobretudo, poder construtivo.


Em direção à Universidade que queremos

A UNEB, que se orgulha de sua história inclusiva, de sua multicampia que atende diversas regiões do estado, que mais coloca professores no mercado de trabalho, pode vir à bancarrota, se escolhermos continuar no caminho político trilhado, nesses últimos anos.

Passamos por momentos emblemáticos, tivemos a primeira reitora negra de uma universidade brasileira, Ivete Sacramento, em 1998, e as cotas foram implantadas na UNEB, sob sua coragem política, em 2002. A UERJ e a UNB também estavam encampando as cotas, concomitantemente com a UNEB, mas a universidade baiana foi ainda mais ousada. Implementou-as, em 2002, com legislação interna, estabelecendo critérios do sistema. Foi a partir desse modelo que a presidenta Dilma assinou em 2012 a Lei de Cotas. Hoje, graças a isso, podemos considerar a UNEB como a mais negra do país.

2017. Estamos vivendo um momento em que somos convocados a assegurar o que ganhamos em termos políticos e representativos, pois estamos sob risco constante de perder tudo. Primeiro, porque o discurso conservador, dogmático e liberal é contra a Universidade pública, principalmente para os mais pobres e historicamente excluídos. Segundo, porque são homens brancos, misóginos, fanáticos religiosos que estão investindo contra nossas lutas históricas, fortalecendo o racismo e o machismo, que sustentam seus privilégios.

A reeleição seria louvável e até necessária se pudéssemos não apenas ter garantidos os direitos de professores, técnicos e estudantes, mas também a defesa de nossa identidade, nosso caráter multicampi, nossa responsabilidade como pioneira das cotas étnico-raciais. Muitos campi da UNEB penam por maior assistência da administração central, sem sede própria e instalações precárias. Professores do interior ficam sob constante risco de perder suas passagens de deslocamento para suas residências, já que ainda não ficou estabelecida uma política que lhes assegure definitivamente esse direito. A UNEB ficou praticamente muda diante do massacre de 12 jovens negros nas cercanias do campus I, em 2015. Não escreveu uma nota de repúdio à fala infeliz do governador que louvou a atitude dos policiais comparando-os a artilheiros. Em vez disso, departamentos da UNEB estampam foto do governador “goleador”. Um governismo impassível é tudo que a UNEB não merece. É preciso que a Universidade exerça seu papel crítico a favor dos excluídos socialmente, senão ela será um braço deficiente e aparelhado do Estado.


A mudança: “nossa cara”, “diversidade e participação”

O quadro da gestão atual é desanimador, a reeleição pode ser desastrosa. Precisamos conhecer a proposta de outros candidatos.

São eles Carla Liane com seu vice Joabson Fiqueiredo e Valdélio Silva com sua vice Márcia Guena. Os dois reitoráveis estavam politicamente envolvidos com a gestão atual, mas romperam posteriormente para lançar suas candidaturas próprias. Carla era vice-reitora. Valdélio apoiava inicialmente a reeleição de Bites, tendo lançado sua candidatura própria após ruptura inesperada e mais ou menos mal explicada. Rupturas, ao contrário do que alguns pensam, são os melhores sinais da democracia. Não há rupturas em sistemas totalitários. Carla e Valdélio acertaram nesse quesito, principalmente, diante do quadro desanimador da gestão que está findando.

Carla justificou em carta sua candidatura e distanciamento da atual gestão. Admitiu que tomou a decisão de não continuidade na chapa de reeleição por não concordar com a falta de diálogo como “o veículo fundamental para a tomada de decisão envolvendo as representações que compõem a dinâmica da vida universitária”. Ainda se referiu, entre outras coisas, ao “combate de toda e qualquer forma de constrangimento e violências, sejam elas ideológicas, de gênero, raça, sexualidade ou geracional, práticas estas que não condizem com a identidade e a missão institucional da UNEB”. Efetivamente, ela foi isolada da gestão, o que geralmente acontece com a presença feminina no poder, quando um homem assume a liderança e usa a imagem da mulher, sobretudo da mulher negra, para ter inserção social.

Valdélio não explicitou sua ruptura com Bites, assim como fez Carla. Quando a UNEB saiu num dos últimos lugares em um ranking de uma revista britânica das melhores universidades da América Latina, ele juntamente com outros professores fez coro com a assessoria de comunicação e jornais parabenizando a UNEB, inclusive, sugerindo o fato de ter sido a melhor da Bahia. O ranking humilhante classificava a UNEB e não apresentava outras universidades baianas, pelo simples motivo de que elas não enviaram informações sobre si para a revista. E isso foi utilizado para promoção da candidatura de Bites.

Entretanto, a proposta de “diversidade e participação” da chapa de Valdélio, sua militância negra e na discussão de gênero, já se distancia do personalismo da chapa de Bites, que estampa um B enorme do seu nome como logomarca.

O lançamento da chapa com slogan “a UNEB com a nossa cara”, de Carla Liane, tenta atender demandas de representação, racial e de gênero, que ao longo da história de nossa instituição foram fundamentais para sua consolidação como instituição pública da educação superior na Bahia.

Carla Liane, professora e cientista social, doutora com pesquisa sobre trabalho informal, em sua biografia eleitoral, enfatiza sua atuação na área jurídica, em defesa do direito dos afro-descendentes, coordenando projetos da Associação Nacional dos Advogados Afro-descendentes (ANAAD), organização fundada por seu pai. Filiada à União Brasileira de Mulheres (UBM) e à União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), também possui inserção em movimentos feministas. Recebeu quatro homenagens – a Comenda Maria Quitéria, o Prêmio Alice Botas, o prêmio Lélia Gonzalez e a condecoração Luiza Mahin pela sua atuação de destaque como educadora e militante das causas sociais. A professora passou por diversos setores da gestão, extensão e pesquisa, na UNEB; além de vice-reitora, também foi diretora do Departamento de Educação, campus I. Sua parceria com o professor de Literatura Joabson Figueiredo é positiva, tendo em vista a inserção produtiva, acadêmica e social de seu vice no interior da Bahia.

A candidatura de Valdélio também acumula relevante capital político e simbólico. Valdélio Santos Silva é cientista social, doutor em estudos étnicos e africanos e foi responsável pelo projeto que instituiu o sistema de cotas étnico-raciais na UNEB em 2002. Foi líder estudantil na década de 70, enfrentou a ditadura, e nos anos de 1990 participou ativamente da Coordenação Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU). Coordena projeto de pesquisa sobre cultura e religiosidade afro-brasileiras. Atualmente é diretor do Departamento de Educação, campus I. O professor recebeu, em 2012, da Câmara Municipal de Salvador, a medalha Zumbi.

Com essa biografia seria muito importante uma articulação das duas candidaturas para a construção de uma UNEB diferente. O slogan da chapa “Diversidade e participação” além da presença de Márcia Guena, militante e pesquisadora do movimento quilombola, afinam-se com a proposta da professora Carla Liane. No entanto, a aproximação inicial de Valdélio com a chapa de Bites, e sua consequente oposição, desde o início, à candidatura de Carla-Joabson torna o cenário das eleições da UNEB embaralhado. Precisamos definir nosso caminho na direção do que propõem essas chapas, tendo em vista o descalabro do racismo em nosso Estado. Duas grandes lideranças negras com capacidade e experiência para gerir a universidade.

A população negra é a que mais sofre com esse quadro de pobreza e também de violência policial, tanto na Grande Salvador e também em toda a Bahia. A justificativa descabida dos desinformados ou maldosos é que se contamos com 80% da população negra é natural que o maior número de mortos esteja entre os afro-descendentes. Se essa lógica fosse pelo menos razoável, negras e negros baianos deveriam constar nos indicadores positivos, ocupariam a maioria dos cargos públicos, não estariam, em sua grande maioria, na informalidade e ganhariam pelo menos um salário-mínimo. A situação da mulher e da mulher negra é ainda mais desoladora. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-BA), de janeiro até o dia 15 de maio de 2017, 15.751 casos de violência contra a mulher foram registrados na Bahia. São mais de 100 casos por dia. Helem Moreira, jovem negra, estudante de Pedagogia da UNEB e feminista, foi recentemente assassinada pelo seu companheiro, por motivo de ciúme. Nesse tipo de violência, não raramente o homem sai impune e, às vezes, até vitimizado.

Enquanto isso, negros, negras e mulheres, em geral, da UNEB, minorias historicamente excluídas que querem uma universidade com a cara delas, uma universidade da diversidade e da participação, encontram-se divididos entre duas chapas.

A oposição efetiva de Carla Liane, sua ruptura corajosa, sua luta por liderança e representação é um sinal de que a UNEB pode adquirir novamente sua força acadêmica, sua marca incontestável e indelével, de uma universidade popular e inclusiva. Fazendo com que, longos 12 anos depois, uma mulher volte a ocupar o espaço de reitora. Essa é a UNEB que queremos.





terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois comprimidos de rivotril



“Change begin with a whisper.” (capa do Filme The Help)


Fátima e Jucira, magras, ambas 36 anos. A primeira médica pediatra e a segunda funcionária pública municipal da área contábil. A primeira casada, com um filho e a segunda separada, sem filho, mas com dois mil reais a mais no final do mês.

Moravam no mesmo condomínio e se odiavam intimamente. Desejavam a vida da outra. O marido e o status de uma. O dinheiro sobrando e a solteirice da outra. Toda vez que se encontravam no supermercado do bairro, punham-se a discutir sobre suas empregadas domésticas, como duas sinhás coloniais, cuidando da criadagem. 

E, assim, juntas, pareciam duas comparsas, terríveis e implacáveis como se Schwarzenegger e Stallone, vestindo tailleur, estivessem atuando num mesmo filme. Máquinas mortíferas. A contadora iniciou uma conversa no ápice discursivo de um blockbuster que era suas míseras vidas de classe média.

- Ficou com a Lucidalva?
- Nada, aquela só chegava fedendo, não tinha higiene, era meio porca.
- Já a Maria deixou o arroz queimar novamente.
- Aff… Você ainda continua com aquela maluca?
- Sim. O marido violento e o filho estão desempregados, se a gente não ajuda esse povo, quem vai ajudar? Está dormindo na dependência lá em casa por uns dias, porque apanhou do dito cujo e está com medo de, numa dessas, perder sua vida.

A médica deu um sorriso, mas havia, por dentro, despeito da pele morena e da “consciência social” da contadora. Ela fazia sua parte também. Todos os dias postava no facebook fotos dos meninos da África, dos tufões, das inundações e das misérias que acometiam todo povo pobre, sem ajuda do governo. Não tinha a menor noção de geopolítica, nem sabia exatamente onde era o Afeganistão (no curso de medicina não se aprende isso), mas sabia colar links na sua timeline.

A medicina lhe dera a lógica e, mesmo sendo uma profissional medíocre, era tudo o que precisava para sua existência. Por isso podia ser tão contundente na arrumação dos pratos, na organização das coisas na geladeira e dos panos de chão. Desenvolvera um método de cores de panos para os diversos usos da casa. Quase toda semana, a mesma ladainha e o marido saía mais cedo para não presenciar a tortura chinesa, aplicadas com prazer sistemático às neófitas do serviço doméstico em sua casa. “Amarelo é para o banheiro social, o verde para a suíte, branco para a sala e para os quartos”. Acentuava bem nos “esses” para dar alguma lição de seu português para a serviçal. Exigia limpeza severa, mas não permitia que empregadas usassem o chuveiro do banheiro social.

Orgulhava-se de vestir jaleco e entrar no seu consultório. Não participava de congressos, nem lia artigos científicos, mas se achava sumidade em sua área, quando olhava no próprio espelho, aquele rosto branco maquiado e a farda médica, sem um único vinco. Dra. Maria de Fátima Fiúza, bordado de verde no bolso. Casar com um homem de sobrenome estrangeiro (ninguém sabe, ao certo, se holandês ou italiano) foi seu melhor trunfo. Podia tirar o Oliveira de solteira e ostentar esse empréstimo matrimonial (esperava que por toda vida), conferindo-lhe mais legitimidade no círculo da medicina brasileira.

Aquela sua tarefa diária de consultas, com escapadas, vez em quando, para fofocar com colegas sobre outras ex colegas da faculdade, resumia absolutamente sua vida. Afora isso, mantinha uma relação amorosa secreta com o pai de um paciente (sexo selvagem) e ia toda semana para o psicólogo discutir o desgaste do casamento e seus dramas da infância, em relação a sua mãe. Achava-se o suprassumo da vitória pessoal e do caráter, orgulhava-se de ter uma família, por isso não podia deixar que uma mulher solteira, funcionária pública, dominasse o tópico de uma conversa.

- E você paga salário e assina carteira?
- Não.
- Olha lá, ela pode te colocar na justiça, não conhece a PEC da doméstica? Fique de olho!
- Ela é de confiança, deixo ela sozinha em minha casa. O único problema é o fogão.

A médica impunha o discurso da legalidade, mas nunca assinou carteira de ninguém. Respondia por dois processos trabalhistas e todo ano uma secretária nova no consultório. Em casa, a estratégia era ficar com as meninas pelos dois meses legais de experiência, despedi-las sob uma desculpa qualquer, e contratar outra. Não se podia ter empregadas por toda a vida, sob a velha alegação de que já faziam parte da família.

E a cantilena das coisas arrumadas, da lógica dos lugares, seu sentimento de onipotência perante a ninharia do espaço doméstico, único lugar em que podia ter poder de rainha absolutista. O marido cada vez mais taciturno e o filho mais rebelde. 

- Uma pessoa de confiança, em casa, é difícil hoje em dia.
- Por falar nisso, deixa eu voltar para minha casa, a Maria ficou em casa cozinhando, daqui a pouco chego com o apartamento incendiado.
- Deus nos livre, vizinha. Tchau.
- Tchau.

Conversar sobre empregadas domésticas era o momento de convergência de lutas. Duas guerreiras em sua batalha diária. Duas samurais, incólumes em suas tarefas de patroas. Confidências de classe, destilar veneno no supermercado para se sentirem pertencentes a uma mesma comunidade. Essa família universal que arrogava o título de gente de bem. 

Saindo disso, vidas completamente diferentes. A contadora não se adaptou ao convivío com um marido. Da casa para o trabalho e desse para casa. Sonhava em viver numa mansão com empregados, o marido, caliente e fiel, bancando tudo. Imaginava ainda um casal de filhos e babás 24 horas. 

Chegou a viver com um cinquentão, antigo amigo do facebook, que morava sozinho num casarão de chácara, apenas com um caseiro vivendo nos fundos da propriedade, num casebre de fazer dó. Aquela foi a experiência mais próxima que tivera do casamento ideal com um homem rico. Casamento esse, aconselhado pela mãe, negra e pobre, que lhe sustentou por muito tempo como bancária, e a quem culpava sua infelicidade atual de solteira endinheirada. “Se não for assim, não case minha filha”. Hoje a mãe morta e os ideais da filha estudante, militante de esquerda, bissexual, também. Era filha única e nem mesmo do pai tinha notícias. Um italiano que voltou para o país natal, quando ela ainda era criança. 

Jucira Sarno, prenome de pobre e sobrenome de aventureiro europeu, passara num concurso público e morava num condomínio fechado.

O casamento com o cinquentão durou dois anos. O homem perdeu a propriedade para o caseiro, que ganhou um vultoso processo trabalhista. Ela não suportou a humilhação, descasou e foi morar sozinha. O único lado positivo é que podia continuar com uma vida sexual mais livre. No fundo mesmo de suas incertezas, se existe um fundo para as coisas, queria casamento e filhos.

A conversa com a médica trouxe a tona a história do seu casamento e da sya mãe, que sempre aparecia moribunda em seus sonhos. Saiu do supermercado, sentindo-se angustiada, ligou para uma amiga amante e combinaram de tomar uma cerveja. 

Chegou em casa tarde, um pouco bêbada. Casa cheirosa e limpíssima. As únicas luzes acesas era do abajur da sala e da pequena TV, na dependência, recôndito da grande cozinha. Maria assistia, sentada num colchão, a um programa humorístico e dava risadas bem tímidas de um blackface, imitando empregada doméstica. Ela entrou na dependência, sentiu-se carente e quis ficar ao lado da empregada, pegou um banco e se fingiu interessada no programa. Maria sorriu diante dessa aproximação tão inusitada. Uma lágrima saiu dos olhos da contadora ao sentir naquele ambiente um cheiro de pobreza. Lembrou de sua mãe.

- Dona Jucira, está chorando?
- Nada não, Maria. Você não está com sono?
- Não consigo dormir. A senhora não tem um daqueles remédios que faz a gente apagar?
- Tenho. Eu também não durmo há muito tempo. Espera um pouco.

A patroa sorriu, levantou-se, foi ao armário da sua suíte e voltou. Na mão, dois comprimidos de rivotril. Tomou secamente um e entregou o outro para Maria.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A poesia desses tempos






Ezra Pound defendia o nazismo, mas escrevia poesia revolucionária, desconstruindo a própria estrutura sagrada da língua inglesa e misturando técnicas poéticas latino americanas e orientais. Borges era um homem conservador, defendia valores tradicionais da sociedade argentina de Buenos Aires, mas sua literatura era selvática na desconstrução do individualismo e racionalismo.

Drummond batia ponto como funcionário público e nunca fez greve, mas escreveu a Rosa do Povo que traduz uma angústia existencial diante da guerra e dos sistemas totalitários (Este é tempo de partido/tempo de homens partidos). Machado de Assis foi acusado de branqueamento, de nunca divulgar publicamente sua condição étnico-racial (descendente de africanos escravizados), mas foi mordaz na crítica ao sistema escravocrata e ao racismo em contos como Pai contra Mãe, Espelho e crônicas que ironizavam o pós-abolição, apontando que a questão negra não se resolveria tão facilmente numa estrutura racista como a nossa. 

A boa literatura, aquela que fica, independente das ideologias de seus autores, nunca sucumbe a forças reacionárias, não pratica umbiguismo, que é essa mania de se achar o centro do mundo, estando (como no nosso caso) na periferia da periferia, nem se coloca na porta de escolas e universidades para barrar forças juvenis, inexperientes, mas com demandas políticas reais, porque essas forças são poéticas.

 A boa poesia se espraia e entende forças latentes da sociedade, não é departamental, nem municipal, nem estadual flui com as forças da liberdade. Ainda estou esperando ler a poesia e a literatura que será produzida em momentos lúgubres como esse, porque o que ando lendo ainda não irrompeu com a força bruta do asfalto de nossa realidade, aliás só faz se afundar. Precisamos da Rosa do Povo, do Aleph, do primordial e revolucionário, da força da literatura que surge na percepção do artista como "antena da raça" e como antena, captando também seus mais selvagens ruídos. 

Precisamos nos descobrir como Cubas e Casmurro, emaranhado nas redes do indivíduo e da sociedade para, como literatura, narrativa e arte, ser instrumento de força e contestação.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A psicologia e o império do profundo



O problema da psicologia é que transferiu nossos problemas diários para o discurso do profundo.

Nossos dramas pessoais assim resultam das intrincadas relações do nosso subconsciente e o mistério das nossas dificuldades com o outro e com nós mesmos está debaixo do tapete, nos recônditos da nossa "casa mente".

Vivemos no império do escondido, difícil de ser revelado e descoberto, acreditando em iluminações da psicologia para desvelar nossos dramas, nos tornamos assim escravos dos divãs, da psicologia de botequim e da metafísica do eu. 

Saímos da vida cotidiana com pessoas reais e vivemos no mundo do desvendamento da psicologia dos seus métodos transcendentais, acreditando na sua força para libertar um escravo do seu profundo. 

Mas como disse Nietzsche, num dos raros momentos de iluminação filosófica, o profundo é apenas uma ruga na superfície. Pessoas que transferem suas questões para o "profundo" do discurso psicológico se afogam no seu próprio egoísmo.

O STF aprovou a criminalização da greve e a permissão do corte de salário. É a justiça brasileira cavando sua própria cova.

Gastamos com o judiciário mais caro do mundo. Mais de 1% do nosso PIB é desembolsado para pagar uma "justiça" inescrupulosa e corrupta, para não dizer golpista também. 

Um amigo me disse que os juízes são funcionários públicos são "inteligentíssimos" e estudaram muito para chegar onde chegaram, por isso merecem os salários (escandalosos) que ganham. 

O que se estuda ou o quanto se estuda para se passar nesses concursos para juízes e promotores parece não repercutir na eficiência de uma justiça que é morosa e na atuação duvidosa de muitos dos nossos mais ilustres juízes, Gilmar Mendes é um exemplo disso.

Falar de estudo e mérito, numa sociedade que prima pela meritocracia e pela presença de dinastias que se estabeleceram no judiciário brasileiro há séculos protegendo o status quo e colocando massivamente preto e pobre na cadeia, é uma piada. O que vemos da justiça brasileira é um STF, que representa o mais alto clero do judiciário brasileiro, velho e com suas aposentadorias milionárias garantidas, cupincha do delírio (Janaína Paschoal) e parcialidade (Moro) de juizecos, vaidosos.

Vemos a sanha de promotores imberbes que usam slides infantilóides para prender alguém sem provas e pelas convicções, apenas pela arrogância de suas togas degeneradas. Pagar 46.000 a um "funcionário" desses é indecente e imoral, num país em que a justiça só funciona para poucos, em que impera a plutocracia e não a democracia. Para mim isso não é justiça. 

Outra coisa: volume de trabalho e estudo não justificam salários astronômicos (como defendeu meu amigo), senão vou reivindicar isso também para milhares de brasileiros também que penam por um lugar ao sol, e, esses sim, "inteligentíssimos" em suas estratégias de sobrevivência, num país de injustiças praticadas pela "justiça". 

Se houver no Brasil uma revolução parecida com a francesa, sei quais serão as primeiras cabeças que rolarão sob as guilhotinas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A seleção Tabajara Futebol Clube da Direita

(Inspirada na escalação do Brasil no jogo contra Alemanha, copa de 2014)

Por Marcos Aurélio Souza

Presidente da CBF e do clube: Eduardo Cunha (o time é ruim, mas ele sempre tenta dar um jeito de ganhar: compra juiz, corrompe jogadores, oferece propina etc. O maior cartola de todos os tempos).

Técnico: Bolsonaro (grita mais do que Felipão, representa tudo o que há de pior no time).

No Campo

Goleiro – Luiz Felipe Pondé (é gordo e lento, não agarra ninguém)

Zagueiro 1 - Alexandre Frota (gosta de ficar na retranca e de segurar os jogadores mais fortes)

Zagueiro 2 – Olavo de Carvalho (defende o indefensável e leva sempre debaixo da saia)

Lateral direito – Feliciano (mais direita que esse é impossível. Às vezes, vai tanto para direita, que as pessoas perguntam: “Onde está ele”? Saiu do campo)

Lateral esquerdo: Lobão (Botaram ele na esquerda, porque gostam de sacanear com ele. Lobão fica com a cara muito engraçada, quando é sacaneado)

Meio de Campo 1: Kataguiri, o fenômeno (aprendeu no Japão técnicas futebolísticas. Corre e corre e não faz nada. Fica no meio porque adora está no centro das atenções)

Meio de Campo 2: Maitê Proença (colocaram ela aí no meio, porque tinha que ter alguém bonito no time)

Meio de Campo 3: Diogo Mainardi (não sabe se está no Brasil, na Itália ou na Alemanha, por isso ficou no meio, mas, na verdade, é da direita)

Atacante 1: Sherazade (ela ataca tanto, que as vezes parece atacada)

Atacante 2: Datena (afinal de contas, com Frota, Olavo de Caralho e Feliciano, tinha que ter um “macho de verdade” pra bater o pau na mesa)

Atacante 3: Marta Suplicy (ela era do time adversário, mas está nesse time pra fazer gol contra. Será?)