quinta-feira, 14 de setembro de 2017

As eleições da UNEB: o que temos e o que queremos

Prof. Dr. Marcos Aurélio Souza


O cenário recente da política nacional é aterrador. Um presidente ilegítimo aprovando “reformas” antidemocráticas, a toque de caixa, com a aquiescência de um Congresso podre. Expectativa e expectativa. Aguardamos um efetivo “fora Temer”, mas ele vai ficando e ficando, ao sabor do nosso ethos messiânico, sempre e à espera de uma salvação, o que, não raramente, descamba na acomodação e no conformismo geral.

Na administração pública, o conformismo alimenta a malversação, que encontra um motivo para justificar inaptidão e incompetência: o motivo é sempre “estamos em crise”. “Não fazemos nada, não construímos nada, por causa dela”. Crise é um doce na boca de quem não quer fazer, não sabe ou deixa de fazer, o que é esperado pela comunidade.

No debate das eleições para a reitoria da UNEB, realizado em Jacobina, José Bites, que se candidata à reeleição, ao ser perguntado sobre inexecução e devolução de mais de R$ 20 milhões aos cofres públicos (dados do TCE – Tribunal de Contas do Estado), deu uma resposta enviesada e cheia de reticências. Deixar de executar R$ 20 milhões numa época de estabilidade política econômica é, no mínimo, indecente. O que dizer, então, numa época de crise, quando se reclama de falta de verba, de enxugamento e cortes financeiros?

Segundo o reitor Bites a devolução de R$ 13 desses mais de R$ 20 milhões “se dava por conta de que o projeto não batia com as metas definidas posteriormente”, “e que o projeto era uma coisa e o que se discutia com a comunidade era outra coisa”. É necessário dizer que projeto era esse, que metas são essas. Que discussão? Que comunidade? Tudo fica na penumbra. Ninguém sabe o porquê. Nem dos R$ 7 milhões restantes, não mencionados em sua reposta.

Para a comunidade um dinheiro como esse não utilizado para atender suas demandas é, sobretudo, a esperança de dias melhores morrendo na praia. Para todos nós, que pagamos impostos para que a universidade cumpra seu papel social, é a malversação, a falta de disposição e articulação políticas para que o erário tenha seu destino certo, justo e eficiente.

A UNEB se afundou na apatia política para seus funcionários, professores e técnicos também. Na greve docente de 2015, a ADUNEB sofria com o governismo impassível da reitoria no processo de negociação, que já estava muito difícil. Emitiu uma nota denunciando que o reitor “tenta dificultar as atividades do comando de greve, blinda o governo do estado e se distancia dos interesses e dificuldades da comunidade acadêmica da UNEB”.

Em junho desse ano, O SINTEST, sindicato dos técnicos da UNEB, foi surpreendido com um Edital para a contratação de 58 técnicos de Nível Superior, em caráter temporário (REDA), chancelado pela reitoria. Com essa ação, a reitoria desrespeitava uma série de reivindicações da categoria, como a ampliação de carga horária de 30 para 40 horas, pagamento de progressões e implementação de promoções funcionais.

A contratação de REDA impactava muito mais no orçamento universitário do que no atendimento aos direitos dos funcionários efetivos e poderá impedir alterações de carga horária, implementação em folha das progressões e abertura do processo de promoção funcional, demandadas pelos Servidores Técnico-administrativos. Novamente, ficamos sem entender como pode a universidade reclamar de crise se ela gasta mais indevidamente, sobretudo, em detrimento dos trabalhadores.

Estudantes do campus I reclamam da falta de um restaurante universitário (RU) há anos. A atual administração deixou a obra às moscas, parada há meses, material de construção enferrujando e destruído. Enquanto em Feira de Santana, estudantes da UEFS reivindicam refeição gratuita no RU, construído há mais de uma década, no qual gastam R$ 1,00 por refeição, estudantes da UNEB ainda se encontram sem um restaurante universitário, que passou do plano de construção para o abandono completo.

Diversos cursos denunciam a falta de infraestrutura. No ano passado, estudantes de medicina realizaram uma caminhada para reclamar da falta de professores e exigiam condições mínimas para o funcionamento do curso.

Nada ou pouco mudou, desde então. A evasão estudantil é alta, devido, em grande parte, à ausência de uma política de permanência estudantil efetiva. Existe a crise, que é sobretudo política, envolvendo a esfera federal, mas tudo fica pior quando um reitor, por não ter competência e força política, não trabalha para a melhoria das condições da Universidade. Principalmente, quando usa a tônica da crise para mascarar o que se traduz como incompetência administrativa.

Numa eventual reeleição, esperamos que esses problemas sejam corrigidos. Críticas têm, sobretudo, poder construtivo.


Em direção à Universidade que queremos

A UNEB, que se orgulha de sua história inclusiva, de sua multicampia que atende diversas regiões do estado, que mais coloca professores no mercado de trabalho, pode vir à bancarrota, se escolhermos continuar no caminho político trilhado, nesses últimos anos.

Passamos por momentos emblemáticos, tivemos a primeira reitora negra de uma universidade brasileira, Ivete Sacramento, em 1998, e as cotas foram implantadas na UNEB, sob sua coragem política, em 2002. A UERJ e a UNB também estavam encampando as cotas, concomitantemente com a UNEB, mas a universidade baiana foi ainda mais ousada. Implementou-as, em 2002, com legislação interna, estabelecendo critérios do sistema. Foi a partir desse modelo que a presidenta Dilma assinou em 2012 a Lei de Cotas. Hoje, graças a isso, podemos considerar a UNEB como a mais negra do país.

2017. Estamos vivendo um momento em que somos convocados a assegurar o que ganhamos em termos políticos e representativos, pois estamos sob risco constante de perder tudo. Primeiro, porque o discurso conservador, dogmático e liberal é contra a Universidade pública, principalmente para os mais pobres e historicamente excluídos. Segundo, porque são homens brancos, misóginos, fanáticos religiosos que estão investindo contra nossas lutas históricas, fortalecendo o racismo e o machismo, que sustentam seus privilégios.

A reeleição seria louvável e até necessária se pudéssemos não apenas ter garantidos os direitos de professores, técnicos e estudantes, mas também a defesa de nossa identidade, nosso caráter multicampi, nossa responsabilidade como pioneira das cotas étnico-raciais. Muitos campi da UNEB penam por maior assistência da administração central, sem sede própria e instalações precárias. Professores do interior ficam sob constante risco de perder suas passagens de deslocamento para suas residências, já que ainda não ficou estabelecida uma política que lhes assegure definitivamente esse direito. A UNEB ficou praticamente muda diante do massacre de 12 jovens negros nas cercanias do campus I, em 2015. Não escreveu uma nota de repúdio à fala infeliz do governador que louvou a atitude dos policiais comparando-os a artilheiros. Em vez disso, departamentos da UNEB estampam foto do governador “goleador”. Um governismo impassível é tudo que a UNEB não merece. É preciso que a Universidade exerça seu papel crítico a favor dos excluídos socialmente, senão ela será um braço deficiente e aparelhado do Estado.


A mudança: “nossa cara”, “diversidade e participação”

O quadro da gestão atual é desanimador, a reeleição pode ser desastrosa. Precisamos conhecer a proposta de outros candidatos.

São eles Carla Liane com seu vice Joabson Fiqueiredo e Valdélio Silva com sua vice Márcia Guena. Os dois reitoráveis estavam politicamente envolvidos com a gestão atual, mas romperam posteriormente para lançar suas candidaturas próprias. Carla era vice-reitora. Valdélio apoiava inicialmente a reeleição de Bites, tendo lançado sua candidatura própria após ruptura inesperada e mais ou menos mal explicada. Rupturas, ao contrário do que alguns pensam, são os melhores sinais da democracia. Não há rupturas em sistemas totalitários. Carla e Valdélio acertaram nesse quesito, principalmente, diante do quadro desanimador da gestão que está findando.

Carla justificou em carta sua candidatura e distanciamento da atual gestão. Admitiu que tomou a decisão de não continuidade na chapa de reeleição por não concordar com a falta de diálogo como “o veículo fundamental para a tomada de decisão envolvendo as representações que compõem a dinâmica da vida universitária”. Ainda se referiu, entre outras coisas, ao “combate de toda e qualquer forma de constrangimento e violências, sejam elas ideológicas, de gênero, raça, sexualidade ou geracional, práticas estas que não condizem com a identidade e a missão institucional da UNEB”. Efetivamente, ela foi isolada da gestão, o que geralmente acontece com a presença feminina no poder, quando um homem assume a liderança e usa a imagem da mulher, sobretudo da mulher negra, para ter inserção social.

Valdélio não explicitou sua ruptura com Bites, assim como fez Carla. Quando a UNEB saiu num dos últimos lugares em um ranking de uma revista britânica das melhores universidades da América Latina, ele juntamente com outros professores fez coro com a assessoria de comunicação e jornais parabenizando a UNEB, inclusive, sugerindo o fato de ter sido a melhor da Bahia. O ranking humilhante classificava a UNEB e não apresentava outras universidades baianas, pelo simples motivo de que elas não enviaram informações sobre si para a revista. E isso foi utilizado para promoção da candidatura de Bites.

Entretanto, a proposta de “diversidade e participação” da chapa de Valdélio, sua militância negra e na discussão de gênero, já se distancia do personalismo da chapa de Bites, que estampa um B enorme do seu nome como logomarca.

O lançamento da chapa com slogan “a UNEB com a nossa cara”, de Carla Liane, tenta atender demandas de representação, racial e de gênero, que ao longo da história de nossa instituição foram fundamentais para sua consolidação como instituição pública da educação superior na Bahia.

Carla Liane, professora e cientista social, doutora com pesquisa sobre trabalho informal, em sua biografia eleitoral, enfatiza sua atuação na área jurídica, em defesa do direito dos afro-descendentes, coordenando projetos da Associação Nacional dos Advogados Afro-descendentes (ANAAD), organização fundada por seu pai. Filiada à União Brasileira de Mulheres (UBM) e à União de Negros pela Igualdade (UNEGRO), também possui inserção em movimentos feministas. Recebeu quatro homenagens – a Comenda Maria Quitéria, o Prêmio Alice Botas, o prêmio Lélia Gonzalez e a condecoração Luiza Mahin pela sua atuação de destaque como educadora e militante das causas sociais. A professora passou por diversos setores da gestão, extensão e pesquisa, na UNEB; além de vice-reitora, também foi diretora do Departamento de Educação, campus I. Sua parceria com o professor de Literatura Joabson Figueiredo é positiva, tendo em vista a inserção produtiva, acadêmica e social de seu vice no interior da Bahia.

A candidatura de Valdélio também acumula relevante capital político e simbólico. Valdélio Santos Silva é cientista social, doutor em estudos étnicos e africanos e foi responsável pelo projeto que instituiu o sistema de cotas étnico-raciais na UNEB em 2002. Foi líder estudantil na década de 70, enfrentou a ditadura, e nos anos de 1990 participou ativamente da Coordenação Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU). Coordena projeto de pesquisa sobre cultura e religiosidade afro-brasileiras. Atualmente é diretor do Departamento de Educação, campus I. O professor recebeu, em 2012, da Câmara Municipal de Salvador, a medalha Zumbi.

Com essa biografia seria muito importante uma articulação das duas candidaturas para a construção de uma UNEB diferente. O slogan da chapa “Diversidade e participação” além da presença de Márcia Guena, militante e pesquisadora do movimento quilombola, afinam-se com a proposta da professora Carla Liane. No entanto, a aproximação inicial de Valdélio com a chapa de Bites, e sua consequente oposição, desde o início, à candidatura de Carla-Joabson torna o cenário das eleições da UNEB embaralhado. Precisamos definir nosso caminho na direção do que propõem essas chapas, tendo em vista o descalabro do racismo em nosso Estado. Duas grandes lideranças negras com capacidade e experiência para gerir a universidade.

A população negra é a que mais sofre com esse quadro de pobreza e também de violência policial, tanto na Grande Salvador e também em toda a Bahia. A justificativa descabida dos desinformados ou maldosos é que se contamos com 80% da população negra é natural que o maior número de mortos esteja entre os afro-descendentes. Se essa lógica fosse pelo menos razoável, negras e negros baianos deveriam constar nos indicadores positivos, ocupariam a maioria dos cargos públicos, não estariam, em sua grande maioria, na informalidade e ganhariam pelo menos um salário-mínimo. A situação da mulher e da mulher negra é ainda mais desoladora. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-BA), de janeiro até o dia 15 de maio de 2017, 15.751 casos de violência contra a mulher foram registrados na Bahia. São mais de 100 casos por dia. Helem Moreira, jovem negra, estudante de Pedagogia da UNEB e feminista, foi recentemente assassinada pelo seu companheiro, por motivo de ciúme. Nesse tipo de violência, não raramente o homem sai impune e, às vezes, até vitimizado.

Enquanto isso, negros, negras e mulheres, em geral, da UNEB, minorias historicamente excluídas que querem uma universidade com a cara delas, uma universidade da diversidade e da participação, encontram-se divididos entre duas chapas.

A oposição efetiva de Carla Liane, sua ruptura corajosa, sua luta por liderança e representação é um sinal de que a UNEB pode adquirir novamente sua força acadêmica, sua marca incontestável e indelével, de uma universidade popular e inclusiva. Fazendo com que, longos 12 anos depois, uma mulher volte a ocupar o espaço de reitora. Essa é a UNEB que queremos.





terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois comprimidos de rivotril



“Change begin with a whisper.” (capa do Filme The Help)


Fátima e Jucira, magras, ambas 36 anos. A primeira médica pediatra e a segunda funcionária pública municipal da área contábil. A primeira casada, com um filho e a segunda separada, sem filho, mas com dois mil reais a mais no final do mês.

Moravam no mesmo condomínio e se odiavam intimamente. Desejavam a vida da outra. O marido e o status de uma. O dinheiro sobrando e a solteirice da outra. Toda vez que se encontravam no supermercado do bairro, punham-se a discutir sobre suas empregadas domésticas, como duas sinhás coloniais, cuidando da criadagem. 

E, assim, juntas, pareciam duas comparsas, terríveis e implacáveis como se Schwarzenegger e Stallone, vestindo tailleur, estivessem atuando num mesmo filme. Máquinas mortíferas. A contadora iniciou uma conversa no ápice discursivo de um blockbuster que era suas míseras vidas de classe média.

- Ficou com a Lucidalva?
- Nada, aquela só chegava fedendo, não tinha higiene, era meio porca.
- Já a Maria deixou o arroz queimar novamente.
- Aff… Você ainda continua com aquela maluca?
- Sim. O marido violento e o filho estão desempregados, se a gente não ajuda esse povo, quem vai ajudar? Está dormindo na dependência lá em casa por uns dias, porque apanhou do dito cujo e está com medo de, numa dessas, perder sua vida.

A médica deu um sorriso, mas havia, por dentro, despeito da pele morena e da “consciência social” da contadora. Ela fazia sua parte também. Todos os dias postava no facebook fotos dos meninos da África, dos tufões, das inundações e das misérias que acometiam todo povo pobre, sem ajuda do governo. Não tinha a menor noção de geopolítica, nem sabia exatamente onde era o Afeganistão (no curso de medicina não se aprende isso), mas sabia colar links na sua timeline.

A medicina lhe dera a lógica e, mesmo sendo uma profissional medíocre, era tudo o que precisava para sua existência. Por isso podia ser tão contundente na arrumação dos pratos, na organização das coisas na geladeira e dos panos de chão. Desenvolvera um método de cores de panos para os diversos usos da casa. Quase toda semana, a mesma ladainha e o marido saía mais cedo para não presenciar a tortura chinesa, aplicadas com prazer sistemático às neófitas do serviço doméstico em sua casa. “Amarelo é para o banheiro social, o verde para a suíte, branco para a sala e para os quartos”. Acentuava bem nos “esses” para dar alguma lição de seu português para a serviçal. Exigia limpeza severa, mas não permitia que empregadas usassem o chuveiro do banheiro social.

Orgulhava-se de vestir jaleco e entrar no seu consultório. Não participava de congressos, nem lia artigos científicos, mas se achava sumidade em sua área, quando olhava no próprio espelho, aquele rosto branco maquiado e a farda médica, sem um único vinco. Dra. Maria de Fátima Fiúza, bordado de verde no bolso. Casar com um homem de sobrenome estrangeiro (ninguém sabe, ao certo, se holandês ou italiano) foi seu melhor trunfo. Podia tirar o Oliveira de solteira e ostentar esse empréstimo matrimonial (esperava que por toda vida), conferindo-lhe mais legitimidade no círculo da medicina brasileira.

Aquela sua tarefa diária de consultas, com escapadas, vez em quando, para fofocar com colegas sobre outras ex colegas da faculdade, resumia absolutamente sua vida. Afora isso, mantinha uma relação amorosa secreta com o pai de um paciente (sexo selvagem) e ia toda semana para o psicólogo discutir o desgaste do casamento e seus dramas da infância, em relação a sua mãe. Achava-se o suprassumo da vitória pessoal e do caráter, orgulhava-se de ter uma família, por isso não podia deixar que uma mulher solteira, funcionária pública, dominasse o tópico de uma conversa.

- E você paga salário e assina carteira?
- Não.
- Olha lá, ela pode te colocar na justiça, não conhece a PEC da doméstica? Fique de olho!
- Ela é de confiança, deixo ela sozinha em minha casa. O único problema é o fogão.

A médica impunha o discurso da legalidade, mas nunca assinou carteira de ninguém. Respondia por dois processos trabalhistas e todo ano uma secretária nova no consultório. Em casa, a estratégia era ficar com as meninas pelos dois meses legais de experiência, despedi-las sob uma desculpa qualquer, e contratar outra. Não se podia ter empregadas por toda a vida, sob a velha alegação de que já faziam parte da família.

E a cantilena das coisas arrumadas, da lógica dos lugares, seu sentimento de onipotência perante a ninharia do espaço doméstico, único lugar em que podia ter poder de rainha absolutista. O marido cada vez mais taciturno e o filho mais rebelde. 

- Uma pessoa de confiança, em casa, é difícil hoje em dia.
- Por falar nisso, deixa eu voltar para minha casa, a Maria ficou em casa cozinhando, daqui a pouco chego com o apartamento incendiado.
- Deus nos livre, vizinha. Tchau.
- Tchau.

Conversar sobre empregadas domésticas era o momento de convergência de lutas. Duas guerreiras em sua batalha diária. Duas samurais, incólumes em suas tarefas de patroas. Confidências de classe, destilar veneno no supermercado para se sentirem pertencentes a uma mesma comunidade. Essa família universal que arrogava o título de gente de bem. 

Saindo disso, vidas completamente diferentes. A contadora não se adaptou ao convivío com um marido. Da casa para o trabalho e desse para casa. Sonhava em viver numa mansão com empregados, o marido, caliente e fiel, bancando tudo. Imaginava ainda um casal de filhos e babás 24 horas. 

Chegou a viver com um cinquentão, antigo amigo do facebook, que morava sozinho num casarão de chácara, apenas com um caseiro vivendo nos fundos da propriedade, num casebre de fazer dó. Aquela foi a experiência mais próxima que tivera do casamento ideal com um homem rico. Casamento esse, aconselhado pela mãe, negra e pobre, que lhe sustentou por muito tempo como bancária, e a quem culpava sua infelicidade atual de solteira endinheirada. “Se não for assim, não case minha filha”. Hoje a mãe morta e os ideais da filha estudante, militante de esquerda, bissexual, também. Era filha única e nem mesmo do pai tinha notícias. Um italiano que voltou para o país natal, quando ela ainda era criança. 

Jucira Sarno, prenome de pobre e sobrenome de aventureiro europeu, passara num concurso público e morava num condomínio fechado.

O casamento com o cinquentão durou dois anos. O homem perdeu a propriedade para o caseiro, que ganhou um vultoso processo trabalhista. Ela não suportou a humilhação, descasou e foi morar sozinha. O único lado positivo é que podia continuar com uma vida sexual mais livre. No fundo mesmo de suas incertezas, se existe um fundo para as coisas, queria casamento e filhos.

A conversa com a médica trouxe a tona a história do seu casamento e da sya mãe, que sempre aparecia moribunda em seus sonhos. Saiu do supermercado, sentindo-se angustiada, ligou para uma amiga amante e combinaram de tomar uma cerveja. 

Chegou em casa tarde, um pouco bêbada. Casa cheirosa e limpíssima. As únicas luzes acesas era do abajur da sala e da pequena TV, na dependência, recôndito da grande cozinha. Maria assistia, sentada num colchão, a um programa humorístico e dava risadas bem tímidas de um blackface, imitando empregada doméstica. Ela entrou na dependência, sentiu-se carente e quis ficar ao lado da empregada, pegou um banco e se fingiu interessada no programa. Maria sorriu diante dessa aproximação tão inusitada. Uma lágrima saiu dos olhos da contadora ao sentir naquele ambiente um cheiro de pobreza. Lembrou de sua mãe.

- Dona Jucira, está chorando?
- Nada não, Maria. Você não está com sono?
- Não consigo dormir. A senhora não tem um daqueles remédios que faz a gente apagar?
- Tenho. Eu também não durmo há muito tempo. Espera um pouco.

A patroa sorriu, levantou-se, foi ao armário da sua suíte e voltou. Na mão, dois comprimidos de rivotril. Tomou secamente um e entregou o outro para Maria.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A poesia desses tempos






Ezra Pound defendia o nazismo, mas escrevia poesia revolucionária, desconstruindo a própria estrutura sagrada da língua inglesa e misturando técnicas poéticas latino americanas e orientais. Borges era um homem conservador, defendia valores tradicionais da sociedade argentina de Buenos Aires, mas sua literatura era selvática na desconstrução do individualismo e racionalismo.

Drummond batia ponto como funcionário público e nunca fez greve, mas escreveu a Rosa do Povo que traduz uma angústia existencial diante da guerra e dos sistemas totalitários (Este é tempo de partido/tempo de homens partidos). Machado de Assis foi acusado de branqueamento, de nunca divulgar publicamente sua condição étnico-racial (descendente de africanos escravizados), mas foi mordaz na crítica ao sistema escravocrata e ao racismo em contos como Pai contra Mãe, Espelho e crônicas que ironizavam o pós-abolição, apontando que a questão negra não se resolveria tão facilmente numa estrutura racista como a nossa. 

A boa literatura, aquela que fica, independente das ideologias de seus autores, nunca sucumbe a forças reacionárias, não pratica umbiguismo, que é essa mania de se achar o centro do mundo, estando (como no nosso caso) na periferia da periferia, nem se coloca na porta de escolas e universidades para barrar forças juvenis, inexperientes, mas com demandas políticas reais, porque essas forças são poéticas.

 A boa poesia se espraia e entende forças latentes da sociedade, não é departamental, nem municipal, nem estadual flui com as forças da liberdade. Ainda estou esperando ler a poesia e a literatura que será produzida em momentos lúgubres como esse, porque o que ando lendo ainda não irrompeu com a força bruta do asfalto de nossa realidade, aliás só faz se afundar. Precisamos da Rosa do Povo, do Aleph, do primordial e revolucionário, da força da literatura que surge na percepção do artista como "antena da raça" e como antena, captando também seus mais selvagens ruídos. 

Precisamos nos descobrir como Cubas e Casmurro, emaranhado nas redes do indivíduo e da sociedade para, como literatura, narrativa e arte, ser instrumento de força e contestação.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A psicologia e o império do profundo



O problema da psicologia é que transferiu nossos problemas diários para o discurso do profundo.

Nossos dramas pessoais assim resultam das intrincadas relações do nosso subconsciente e o mistério das nossas dificuldades com o outro e com nós mesmos está debaixo do tapete, nos recônditos da nossa "casa mente".

Vivemos no império do escondido, difícil de ser revelado e descoberto, acreditando em iluminações da psicologia para desvelar nossos dramas, nos tornamos assim escravos dos divãs, da psicologia de botequim e da metafísica do eu. 

Saímos da vida cotidiana com pessoas reais e vivemos no mundo do desvendamento da psicologia dos seus métodos transcendentais, acreditando na sua força para libertar um escravo do seu profundo. 

Mas como disse Nietzsche, num dos raros momentos de iluminação filosófica, o profundo é apenas uma ruga na superfície. Pessoas que transferem suas questões para o "profundo" do discurso psicológico se afogam no seu próprio egoísmo.

O STF aprovou a criminalização da greve e a permissão do corte de salário. É a justiça brasileira cavando sua própria cova.

Gastamos com o judiciário mais caro do mundo. Mais de 1% do nosso PIB é desembolsado para pagar uma "justiça" inescrupulosa e corrupta, para não dizer golpista também. 

Um amigo me disse que os juízes são funcionários públicos são "inteligentíssimos" e estudaram muito para chegar onde chegaram, por isso merecem os salários (escandalosos) que ganham. 

O que se estuda ou o quanto se estuda para se passar nesses concursos para juízes e promotores parece não repercutir na eficiência de uma justiça que é morosa e na atuação duvidosa de muitos dos nossos mais ilustres juízes, Gilmar Mendes é um exemplo disso.

Falar de estudo e mérito, numa sociedade que prima pela meritocracia e pela presença de dinastias que se estabeleceram no judiciário brasileiro há séculos protegendo o status quo e colocando massivamente preto e pobre na cadeia, é uma piada. O que vemos da justiça brasileira é um STF, que representa o mais alto clero do judiciário brasileiro, velho e com suas aposentadorias milionárias garantidas, cupincha do delírio (Janaína Paschoal) e parcialidade (Moro) de juizecos, vaidosos.

Vemos a sanha de promotores imberbes que usam slides infantilóides para prender alguém sem provas e pelas convicções, apenas pela arrogância de suas togas degeneradas. Pagar 46.000 a um "funcionário" desses é indecente e imoral, num país em que a justiça só funciona para poucos, em que impera a plutocracia e não a democracia. Para mim isso não é justiça. 

Outra coisa: volume de trabalho e estudo não justificam salários astronômicos (como defendeu meu amigo), senão vou reivindicar isso também para milhares de brasileiros também que penam por um lugar ao sol, e, esses sim, "inteligentíssimos" em suas estratégias de sobrevivência, num país de injustiças praticadas pela "justiça". 

Se houver no Brasil uma revolução parecida com a francesa, sei quais serão as primeiras cabeças que rolarão sob as guilhotinas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A seleção Tabajara Futebol Clube da Direita

(Inspirada na escalação do Brasil no jogo contra Alemanha, copa de 2014)

Por Marcos Aurélio Souza

Presidente da CBF e do clube: Eduardo Cunha (o time é ruim, mas ele sempre tenta dar um jeito de ganhar: compra juiz, corrompe jogadores, oferece propina etc. O maior cartola de todos os tempos).

Técnico: Bolsonaro (grita mais do que Felipão, representa tudo o que há de pior no time).

No Campo

Goleiro – Luiz Felipe Pondé (é gordo e lento, não agarra ninguém)

Zagueiro 1 - Alexandre Frota (gosta de ficar na retranca e de segurar os jogadores mais fortes)

Zagueiro 2 – Olavo de Carvalho (defende o indefensável e leva sempre debaixo da saia)

Lateral direito – Feliciano (mais direita que esse é impossível. Às vezes, vai tanto para direita, que as pessoas perguntam: “Onde está ele”? Saiu do campo)

Lateral esquerdo: Lobão (Botaram ele na esquerda, porque gostam de sacanear com ele. Lobão fica com a cara muito engraçada, quando é sacaneado)

Meio de Campo 1: Kataguiri, o fenômeno (aprendeu no Japão técnicas futebolísticas. Corre e corre e não faz nada. Fica no meio porque adora está no centro das atenções)

Meio de Campo 2: Maitê Proença (colocaram ela aí no meio, porque tinha que ter alguém bonito no time)

Meio de Campo 3: Diogo Mainardi (não sabe se está no Brasil, na Itália ou na Alemanha, por isso ficou no meio, mas, na verdade, é da direita)

Atacante 1: Sherazade (ela ataca tanto, que as vezes parece atacada)

Atacante 2: Datena (afinal de contas, com Frota, Olavo de Caralho e Feliciano, tinha que ter um “macho de verdade” pra bater o pau na mesa)

Atacante 3: Marta Suplicy (ela era do time adversário, mas está nesse time pra fazer gol contra. Será?)



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Meu neto preto


Ela tinha o direito de ser feliz. Mas eu andava desanimado com aquela relação. Esperava uma crise qualquer entre eles, para eu desabafar. Certamente, ela me ouviria calada, respeitaria minha opinião de pai, enfim, me obedeceria. 

Eu queria que minha voz fosse grave como a do meu pai, e eu seria um pai para ela como meu pai foi para mim, antes da doença, que o devastara. O peso da velhice e da diabetes o deixara estranho, era menos meu pai, parecia cada vez mais índio, sentado, pernas abertas, absorto, como um velho botocudo. Lábios abertos, gengivas a mostra, sem dente, como se tivesse usado aqueles alargadores de boca, durante toda a vida. Morreu assim, débil, e eu queria morrer diferente.

A felicidade era branca, e eu estava gordo e grisalho, respeitavam-me como um coronel, todos me bajulavam, mas naquele momento eu queria ser apenas o seu pai. Diria pra ela, esperando momento oportuno, que não queria seu envolvimento com pessoas de outra cor. Ela estava feliz com aquela relação, mas nada dura para sempre. E quando a duração se enfraquecesse, ou perdesse sua solidez, minha voz teria o peso de uma premonição. Aventura é para homem, mulher tem que casar, assegurar estirpe e cor, com um nome de macho, de preferência estrangeiro. O velho me ensinara isso e ensinara isso para minhas irmãs. Pardo, índio, sobrenome de pobre, mas com lições grandiosas para as nossas vidas. Nem se incomodara, quando coloquei nos netos o sobrenome de mamãe, mais raro, porque o dele, que eu herdara também, lembrava tristeza. 

Quando a encontrei duvidosa, não foi a minha voz, mas a voz do avô, meu pai, que lhe disse aquelas palavras:

- Filha, acho ele uma boa pessoa, mas não gosto de sua estética. Eu não casaria com ele.

As palavras tiveram peso naquela natureza, que parecia indócil, mas sempre me obedecia, porque ela se calou e partiu.

Durante os meses seguintes, a tristeza assolara seu rosto, sua relação já não era mesma. Queixava-se sempre do marido. Eu apenas a ouvia e balançava a cabeça como um velho ermitão, um monge, cuja sapiência se pressente no silêncio. Até que um dia me aparecera grávida. Um filho do marido preto, um desfecho atordoante daquela relação, que condenei, e parecia acabar um dia, sem um fruto sequer. Engoli seco a notícia, mas me segurei para não ser bruto. 

A brutalidade, aliás, era a marca de minha adolescência com meus três irmãos homens, com diferenças mínimas de idade. Disputávamos tudo, roupas, comida e a atenção de mamãe. Nossa maior disputa, porém, era o sexo com Raimunda, a empregada preta, uma espécie de escrava que nos criou da infância até a adolescência. Até que meu irmão mais novo, incauto, esquecendo o uso da camisinha, a engravidara, e fui eu quem comprou Cytotec no camelô, apagando a possibilidade de um herdeiro preto na nossa família.

Agora a sombra voltando. Minha filha grávida. Perguntei se ela queria ter o bebê. Ela chorou e eu me calei. Senti-me envergonhado, seria avô de um neto ou de uma neta preta. Senti o peso da minha própria velhice. Temi morrer, careca e magro, minha imagem a mesma, ou pior que a do meu pai. Lembrariam meu sobrenome de tristeza, a minha herança de tristeza. E a terra preta desabaria sobre mim, restando apenas, como fundo do meu orgulho e miséria, meu esqueleto branco e fétido.