terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dois comprimidos de rivotril



“Change begin with a whisper.” (capa do Filme The Help)


Fátima e Jucira, magras, ambas 36 anos. A primeira médica pediatra e a segunda funcionária pública municipal da área contábil. A primeira casada, com um filho e a segunda separada, sem filho, mas com dois mil reais a mais no final do mês.

Moravam no mesmo condomínio e se odiavam intimamente. Desejavam a vida da outra. O marido e o status de uma. O dinheiro sobrando e a solteirice da outra. Toda vez que se encontravam no supermercado do bairro, punham-se a discutir sobre suas empregadas domésticas, como duas sinhás coloniais, cuidando da criadagem. 

E, assim, juntas, pareciam duas comparsas, terríveis e implacáveis como se Schwarzenegger e Stallone, vestindo tailleur, estivessem atuando num mesmo filme. Máquinas mortíferas. A contadora iniciou uma conversa no ápice discursivo de um blockbuster que era suas míseras vidas de classe média.

- Ficou com a Lucidalva?
- Nada, aquela só chegava fedendo, não tinha higiene, era meio porca.
- Já a Maria deixou o arroz queimar novamente.
- Aff… Você ainda continua com aquela maluca?
- Sim. O marido violento e o filho estão desempregados, se a gente não ajuda esse povo, quem vai ajudar? Está dormindo na dependência lá em casa por uns dias, porque apanhou do dito cujo e está com medo de, numa dessas, perder sua vida.

A médica deu um sorriso, mas havia, por dentro, despeito da pele morena e da “consciência social” da contadora. Ela fazia sua parte também. Todos os dias postava no facebook fotos dos meninos da África, dos tufões, das inundações e das misérias que acometiam todo povo pobre, sem ajuda do governo. Não tinha a menor noção de geopolítica, nem sabia exatamente onde era o Afeganistão (no curso de medicina não se aprende isso), mas sabia colar links na sua timeline.

A medicina lhe dera a lógica e, mesmo sendo uma profissional medíocre, era tudo o que precisava para sua existência. Por isso podia ser tão contundente na arrumação dos pratos, na organização das coisas na geladeira e dos panos de chão. Desenvolvera um método de cores de panos para os diversos usos da casa. Quase toda semana, a mesma ladainha e o marido saía mais cedo para não presenciar a tortura chinesa, aplicadas com prazer sistemático às neófitas do serviço doméstico em sua casa. “Amarelo é para o banheiro social, o verde para a suíte, branco para a sala e para os quartos”. Acentuava bem nos “esses” para dar alguma lição de seu português para a serviçal. Exigia limpeza severa, mas não permitia que empregadas usassem o chuveiro do banheiro social.

Orgulhava-se de vestir jaleco e entrar no seu consultório. Não participava de congressos, nem lia artigos científicos, mas se achava sumidade em sua área, quando olhava no próprio espelho, aquele rosto branco maquiado e a farda médica, sem um único vinco. Dra. Maria de Fátima Fiúza, bordado de verde no bolso. Casar com um homem de sobrenome estrangeiro (ninguém sabe, ao certo, se holandês ou italiano) foi seu melhor trunfo. Podia tirar o Oliveira de solteira e ostentar esse empréstimo matrimonial (esperava que por toda vida), conferindo-lhe mais legitimidade no círculo da medicina brasileira.

Aquela sua tarefa diária de consultas, com escapadas, vez em quando, para fofocar com colegas sobre outras ex colegas da faculdade, resumia absolutamente sua vida. Afora isso, mantinha uma relação amorosa secreta com o pai de um paciente (sexo selvagem) e ia toda semana para o psicólogo discutir o desgaste do casamento e seus dramas da infância, em relação a sua mãe. Achava-se o suprassumo da vitória pessoal e do caráter, orgulhava-se de ter uma família, por isso não podia deixar que uma mulher solteira, funcionária pública, dominasse o tópico de uma conversa.

- E você paga salário e assina carteira?
- Não.
- Olha lá, ela pode te colocar na justiça, não conhece a PEC da doméstica? Fique de olho!
- Ela é de confiança, deixo ela sozinha em minha casa. O único problema é o fogão.

A médica impunha o discurso da legalidade, mas nunca assinou carteira de ninguém. Respondia por dois processos trabalhistas e todo ano uma secretária nova no consultório. Em casa, a estratégia era ficar com as meninas pelos dois meses legais de experiência, despedi-las sob uma desculpa qualquer, e contratar outra. Não se podia ter empregadas por toda a vida, sob a velha alegação de que já faziam parte da família.

E a cantilena das coisas arrumadas, da lógica dos lugares, seu sentimento de onipotência perante a ninharia do espaço doméstico, único lugar em que podia ter poder de rainha absolutista. O marido cada vez mais taciturno e o filho mais rebelde. 

- Uma pessoa de confiança, em casa, é difícil hoje em dia.
- Por falar nisso, deixa eu voltar para minha casa, a Maria ficou em casa cozinhando, daqui a pouco chego com o apartamento incendiado.
- Deus nos livre, vizinha. Tchau.
- Tchau.

Conversar sobre empregadas domésticas era o momento de convergência de lutas. Duas guerreiras em sua batalha diária. Duas samurais, incólumes em suas tarefas de patroas. Confidências de classe, destilar veneno no supermercado para se sentirem pertencentes a uma mesma comunidade. Essa família universal que arrogava o título de gente de bem. 

Saindo disso, vidas completamente diferentes. A contadora não se adaptou ao convivío com um marido. Da casa para o trabalho e desse para casa. Sonhava em viver numa mansão com empregados, o marido, caliente e fiel, bancando tudo. Imaginava ainda um casal de filhos e babás 24 horas. 

Chegou a viver com um cinquentão, antigo amigo do facebook, que morava sozinho num casarão de chácara, apenas com um caseiro vivendo nos fundos da propriedade, num casebre de fazer dó. Aquela foi a experiência mais próxima que tivera do casamento ideal com um homem rico. Casamento esse, aconselhado pela mãe, negra e pobre, que lhe sustentou por muito tempo como bancária, e a quem culpava sua infelicidade atual de solteira endinheirada. “Se não for assim, não case minha filha”. Hoje a mãe morta e os ideais da filha estudante, militante de esquerda, bissexual, também. Era filha única e nem mesmo do pai tinha notícias. Um italiano que voltou para o país natal, quando ela ainda era criança. 

Jucira Sarno, prenome de pobre e sobrenome de aventureiro europeu, passara num concurso público e morava num condomínio fechado.

O casamento com o cinquentão durou dois anos. O homem perdeu a propriedade para o caseiro, que ganhou um vultoso processo trabalhista. Ela não suportou a humilhação, descasou e foi morar sozinha. O único lado positivo é que podia continuar com uma vida sexual mais livre. No fundo mesmo de suas incertezas, se existe um fundo para as coisas, queria casamento e filhos.

A conversa com a médica trouxe a tona a história do seu casamento e da sya mãe, que sempre aparecia moribunda em seus sonhos. Saiu do supermercado, sentindo-se angustiada, ligou para uma amiga amante e combinaram de tomar uma cerveja. 

Chegou em casa tarde, um pouco bêbada. Casa cheirosa e limpíssima. As únicas luzes acesas era do abajur da sala e da pequena TV, na dependência, recôndito da grande cozinha. Maria assistia, sentada num colchão, a um programa humorístico e dava risadas bem tímidas de um blackface, imitando empregada doméstica. Ela entrou na dependência, sentiu-se carente e quis ficar ao lado da empregada, pegou um banco e se fingiu interessada no programa. Maria sorriu diante dessa aproximação tão inusitada. Uma lágrima saiu dos olhos da contadora ao sentir naquele ambiente um cheiro de pobreza. Lembrou de sua mãe.

- Dona Jucira, está chorando?
- Nada não, Maria. Você não está com sono?
- Não consigo dormir. A senhora não tem um daqueles remédios que faz a gente apagar?
- Tenho. Eu também não durmo há muito tempo. Espera um pouco.

A patroa sorriu, levantou-se, foi ao armário da sua suíte e voltou. Na mão, dois comprimidos de rivotril. Tomou secamente um e entregou o outro para Maria.




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A poesia desses tempos






Ezra Pound defendia o nazismo, mas escrevia poesia revolucionária, desconstruindo a própria estrutura sagrada da língua inglesa e misturando técnicas poéticas latino americanas e orientais. Borges era um homem conservador, defendia valores tradicionais da sociedade argentina de Buenos Aires, mas sua literatura era selvática na desconstrução do individualismo e racionalismo.

Drummond batia ponto como funcionário público e nunca fez greve, mas escreveu a Rosa do Povo que traduz uma angústia existencial diante da guerra e dos sistemas totalitários (Este é tempo de partido/tempo de homens partidos). Machado de Assis foi acusado de branqueamento, de nunca divulgar publicamente sua condição étnico-racial (descendente de africanos escravizados), mas foi mordaz na crítica ao sistema escravocrata e ao racismo em contos como Pai contra Mãe, Espelho e crônicas que ironizavam o pós-abolição, apontando que a questão negra não se resolveria tão facilmente numa estrutura racista como a nossa. 

A boa literatura, aquela que fica, independente das ideologias de seus autores, nunca sucumbe a forças reacionárias, não pratica umbiguismo, que é essa mania de se achar o centro do mundo, estando (como no nosso caso) na periferia da periferia, nem se coloca na porta de escolas e universidades para barrar forças juvenis, inexperientes, mas com demandas políticas reais, porque essas forças são poéticas.

 A boa poesia se espraia e entende forças latentes da sociedade, não é departamental, nem municipal, nem estadual flui com as forças da liberdade. Ainda estou esperando ler a poesia e a literatura que será produzida em momentos lúgubres como esse, porque o que ando lendo ainda não irrompeu com a força bruta do asfalto de nossa realidade, aliás só faz se afundar. Precisamos da Rosa do Povo, do Aleph, do primordial e revolucionário, da força da literatura que surge na percepção do artista como "antena da raça" e como antena, captando também seus mais selvagens ruídos. 

Precisamos nos descobrir como Cubas e Casmurro, emaranhado nas redes do indivíduo e da sociedade para, como literatura, narrativa e arte, ser instrumento de força e contestação.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A psicologia e o império do profundo



O problema da psicologia é que transferiu nossos problemas diários para o discurso do profundo.

Nossos dramas pessoais assim resultam das intrincadas relações do nosso subconsciente e o mistério das nossas dificuldades com o outro e com nós mesmos está debaixo do tapete, nos recônditos da nossa "casa mente".

Vivemos no império do escondido, difícil de ser revelado e descoberto, acreditando em iluminações da psicologia para desvelar nossos dramas, nos tornamos assim escravos dos divãs, da psicologia de botequim e da metafísica do eu. 

Saímos da vida cotidiana com pessoas reais e vivemos no mundo do desvendamento da psicologia dos seus métodos transcendentais, acreditando na sua força para libertar um escravo do seu profundo. 

Mas como disse Nietzsche, num dos raros momentos de iluminação filosófica, o profundo é apenas uma ruga na superfície. Pessoas que transferem suas questões para o "profundo" do discurso psicológico se afogam no seu próprio egoísmo.

O STF aprovou a criminalização da greve e a permissão do corte de salário. É a justiça brasileira cavando sua própria cova.

Gastamos com o judiciário mais caro do mundo. Mais de 1% do nosso PIB é desembolsado para pagar uma "justiça" inescrupulosa e corrupta, para não dizer golpista também. 

Um amigo me disse que os juízes são funcionários públicos são "inteligentíssimos" e estudaram muito para chegar onde chegaram, por isso merecem os salários (escandalosos) que ganham. 

O que se estuda ou o quanto se estuda para se passar nesses concursos para juízes e promotores parece não repercutir na eficiência de uma justiça que é morosa e na atuação duvidosa de muitos dos nossos mais ilustres juízes, Gilmar Mendes é um exemplo disso.

Falar de estudo e mérito, numa sociedade que prima pela meritocracia e pela presença de dinastias que se estabeleceram no judiciário brasileiro há séculos protegendo o status quo e colocando massivamente preto e pobre na cadeia, é uma piada. O que vemos da justiça brasileira é um STF, que representa o mais alto clero do judiciário brasileiro, velho e com suas aposentadorias milionárias garantidas, cupincha do delírio (Janaína Paschoal) e parcialidade (Moro) de juizecos, vaidosos.

Vemos a sanha de promotores imberbes que usam slides infantilóides para prender alguém sem provas e pelas convicções, apenas pela arrogância de suas togas degeneradas. Pagar 46.000 a um "funcionário" desses é indecente e imoral, num país em que a justiça só funciona para poucos, em que impera a plutocracia e não a democracia. Para mim isso não é justiça. 

Outra coisa: volume de trabalho e estudo não justificam salários astronômicos (como defendeu meu amigo), senão vou reivindicar isso também para milhares de brasileiros também que penam por um lugar ao sol, e, esses sim, "inteligentíssimos" em suas estratégias de sobrevivência, num país de injustiças praticadas pela "justiça". 

Se houver no Brasil uma revolução parecida com a francesa, sei quais serão as primeiras cabeças que rolarão sob as guilhotinas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A seleção Tabajara Futebol Clube da Direita

(Inspirada na escalação do Brasil no jogo contra Alemanha, copa de 2014)

Por Marcos Aurélio Souza

Presidente da CBF e do clube: Eduardo Cunha (o time é ruim, mas ele sempre tenta dar um jeito de ganhar: compra juiz, corrompe jogadores, oferece propina etc. O maior cartola de todos os tempos).

Técnico: Bolsonaro (grita mais do que Felipão, representa tudo o que há de pior no time).

No Campo

Goleiro – Luiz Felipe Pondé (é gordo e lento, não agarra ninguém)

Zagueiro 1 - Alexandre Frota (gosta de ficar na retranca e de segurar os jogadores mais fortes)

Zagueiro 2 – Olavo de Carvalho (defende o indefensável e leva sempre debaixo da saia)

Lateral direito – Feliciano (mais direita que esse é impossível. Às vezes, vai tanto para direita, que as pessoas perguntam: “Onde está ele”? Saiu do campo)

Lateral esquerdo: Lobão (Botaram ele na esquerda, porque gostam de sacanear com ele. Lobão fica com a cara muito engraçada, quando é sacaneado)

Meio de Campo 1: Kataguiri, o fenômeno (aprendeu no Japão técnicas futebolísticas. Corre e corre e não faz nada. Fica no meio porque adora está no centro das atenções)

Meio de Campo 2: Maitê Proença (colocaram ela aí no meio, porque tinha que ter alguém bonito no time)

Meio de Campo 3: Diogo Mainardi (não sabe se está no Brasil, na Itália ou na Alemanha, por isso ficou no meio, mas, na verdade, é da direita)

Atacante 1: Sherazade (ela ataca tanto, que as vezes parece atacada)

Atacante 2: Datena (afinal de contas, com Frota, Olavo de Caralho e Feliciano, tinha que ter um “macho de verdade” pra bater o pau na mesa)

Atacante 3: Marta Suplicy (ela era do time adversário, mas está nesse time pra fazer gol contra. Será?)



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Meu neto preto


Ela tinha o direito de ser feliz. Mas eu andava desanimado com aquela relação. Esperava uma crise qualquer entre eles, para eu desabafar. Certamente, ela me ouviria calada, respeitaria minha opinião de pai, enfim, me obedeceria. 

Eu queria que minha voz fosse grave como a do meu pai, e eu seria um pai para ela como meu pai foi para mim, antes da doença, que o devastara. O peso da velhice e da diabetes o deixara estranho, era menos meu pai, parecia cada vez mais índio, sentado, pernas abertas, absorto, como um velho botocudo. Lábios abertos, gengivas a mostra, sem dente, como se tivesse usado aqueles alargadores de boca, durante toda a vida. Morreu assim, débil, e eu queria morrer diferente.

A felicidade era branca, e eu estava gordo e grisalho, respeitavam-me como um coronel, todos me bajulavam, mas naquele momento eu queria ser apenas o seu pai. Diria pra ela, esperando momento oportuno, que não queria seu envolvimento com pessoas de outra cor. Ela estava feliz com aquela relação, mas nada dura para sempre. E quando a duração se enfraquecesse, ou perdesse sua solidez, minha voz teria o peso de uma premonição. Aventura é para homem, mulher tem que casar, assegurar estirpe e cor, com um nome de macho, de preferência estrangeiro. O velho me ensinara isso e ensinara isso para minhas irmãs. Pardo, índio, sobrenome de pobre, mas com lições grandiosas para as nossas vidas. Nem se incomodara, quando coloquei nos netos o sobrenome de mamãe, mais raro, porque o dele, que eu herdara também, lembrava tristeza. 

Quando a encontrei duvidosa, não foi a minha voz, mas a voz do avô, meu pai, que lhe disse aquelas palavras:

- Filha, acho ele uma boa pessoa, mas não gosto de sua estética. Eu não casaria com ele.

As palavras tiveram peso naquela natureza, que parecia indócil, mas sempre me obedecia, porque ela se calou e partiu.

Durante os meses seguintes, a tristeza assolara seu rosto, sua relação já não era mesma. Queixava-se sempre do marido. Eu apenas a ouvia e balançava a cabeça como um velho ermitão, um monge, cuja sapiência se pressente no silêncio. Até que um dia me aparecera grávida. Um filho do marido preto, um desfecho atordoante daquela relação, que condenei, e parecia acabar um dia, sem um fruto sequer. Engoli seco a notícia, mas me segurei para não ser bruto. 

A brutalidade, aliás, era a marca de minha adolescência com meus três irmãos homens, com diferenças mínimas de idade. Disputávamos tudo, roupas, comida e a atenção de mamãe. Nossa maior disputa, porém, era o sexo com Raimunda, a empregada preta, uma espécie de escrava que nos criou da infância até a adolescência. Até que meu irmão mais novo, incauto, esquecendo o uso da camisinha, a engravidara, e fui eu quem comprou Cytotec no camelô, apagando a possibilidade de um herdeiro preto na nossa família.

Agora a sombra voltando. Minha filha grávida. Perguntei se ela queria ter o bebê. Ela chorou e eu me calei. Senti-me envergonhado, seria avô de um neto ou de uma neta preta. Senti o peso da minha própria velhice. Temi morrer, careca e magro, minha imagem a mesma, ou pior que a do meu pai. Lembrariam meu sobrenome de tristeza, a minha herança de tristeza. E a terra preta desabaria sobre mim, restando apenas, como fundo do meu orgulho e miséria, meu esqueleto branco e fétido.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Preto matando preto ou Ainda o Cabula


Existe uma música intitulada "Haiti", letra de Caetano Veloso, que diz assim: 

“Quando você for convidado pra subir no adro/Da fundação casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/De ladrões mulatos e outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos/(E são quase todos pretos) E aos quase brancos pobres como pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados.” 

Embora Caetano tenha posturas duvidosas em relação a políticas raciais no Brasil (já se colocou contra as cotas nas universidades, por exemplo) seu texto demonstra como funciona o racismo no Brasil, sua faceta mais perniciosa: a internalização e a reprodução do preconceito racial por parte do próprio negro (ou dos "brancos", "quase negros"), vítima e algoz. 

O que herdamos hoje é o funcionamento de uma sociedade que perdurou por mais de 350 anos da nossa história. Uma estrutura colonial, que criava hierarquias entre os próprios escravizados. Como não havia uma origem única, ou uma única cultura de escravizados negros, os quais provinham de diversas partes da África, e, como famílias e etnias eram separadas e desestruturadas para não haver um levante (não havia sequer uma mesma língua) anticolonial, era muito fácil delegar funções coloniais escravocratas (a escravidão era um sistema amplamente praticado na África e na Europa), inclusive funções de opressão entre os próprios africanos. 

A figura do capitão do mato surge daí. Ela era, muitas vezes, um africano ou descendente de africano, que exercia função de caçar negros fugidos. O discurso de articulação negra existiu fora desse sistema opressivo, a partir da inteligência de muitos desses indivíduos que, mesmo com a desarticulação promovida pela diáspora forçada e, muitas vezes, com a inexistência de uma única língua, conseguiam criar movimentos de resistência escrava. E pipocaram quilombos, revoltas e rebeliões, por toda parte do território brasileiro. O Haiti (país que, durante o século XIX, tornou-se a primeira república negra do mundo, e a primeira república da América Latina, e que vive sua miséria atual pela política racista de boicotes históricos de outros países) "não é aqui", porque a colonização conseguiu e vem conseguindo nos desarticular mentalmente. E “é aqui”, pela quantidade de afrodescendentes que temos em nosso país, pelo poder de resistência que isso pode denotar.

A música redimensionada no presente mostra que essa estrutura perdura toda vez que um negro oprime, violenta e prende o outro. A música é interessante porque coloca isso no palco da contemporaneidade, da violência policial no palco das grandes festas, como no carnaval, ou na gravação de grandes sucessos da música internacional, vide Paul Simon e Michael Jackson no Pelourinho. Violência que é quase sempre dirigida às pessoas negras.

Bom, aí vem o discurso da segurança, das drogas da criminalidade… Mas vamos pensar a criminalidade, então, bem friamente. Onde está o crime? O tráfico de droga é o principal motivo para o assassinato de jovens negros, segundo registros policiais. No entanto, são jovens e velhos brancos, em grande parte, que compram essa droga. A droga não é consumida no Cabula, bairro de negros, mas na Pituba, na Graça, bairros de branco. A polícia não entra em prédio de luxo para prender inveterados consumidores de cocaína, que alimentam o tráfico. Imagine só a cena de vários policiais pegando jovens da Graça, Pituba, Barra, em sua maioria brancos e de classe média, e os executando por serem consumidores de droga, ou criminosos. Imaginou? Não dá nem pra imaginar, não é?Porque o capitão do mato não é louco de invadir a Casa Grande, embora toda ordem de crime seja praticada por quem está lá. 

Agora, pense na cena de policiais entrando em barracos de pretos e pobres, selecionando-os a esmo nas ruas do Cabula e matando 13 inocentes. É mais fácil matar negro pobre, porque foram historicamente relegados pela ideologia raciológica da inferiorização, e por uma justiça ideologicamente branca, que cobra caro para ser “justa” (a redundância é necessária). 

Não estou dizendo que o policial reedita sempre a função do capitão do mato, ou que um policial negro sempre faz isso. Mas quando a polícia se torna braço ideológico de um Estado genocida, que tem costume de atentar contra os mais pobres e ver a criminalidade intensamente como prática da população negra ( herança maldita da escravidão e da colonização) é claro que vai haver resistência. Ninguém é tolo de ver um alto índice de homicídios de pessoas negras e achar que isso tudo é por causa do crime. Há uma pesada carga histórica, ideológica, nesse fato sombrio.

Polícia que é polícia e quer combater o crime, o tráfico de drogas, rompe a corda do bloco do carnaval e apreende a cocaína do "mauricinho" que está lá. Se ela só exerce poder e brutalidade contra a população que está fora, na periferia, se ela é ostensiva para quem é inocente, só porque está do lado estigmatizado, exerce sim a função de capitão do mato. O professor reedita a estrutura colonial quando considera um aluno tábula rasa, diz que ele não sabe de nada e desconsidera seus saberes, como os jesuítas faziam com os índios. Da mesma forma, que a polícia reedita o poder genocida da casa grande (o engenho dos brancos) quando assassina 13 jovens inocentes.

Viva os bons policiais, que não entram nessa lógica. E que vivam nossos jovens negros.

(Para quem quer ampliar o conhecimento sobre o assunto "racismo brasileiro", "colonialismo e racismo", algumas boas leituras:


AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda Negra, Medo Branco: o negro no imaginário das elites - século XIX. 2ª ed. São Paulo: Annablume, 2004.

FANON, Frantz. Os condenados da terra. 2 ed. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo/Rio de Janeiro: 34/Universidade Cândido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.

GONZALES, Lélia. A categoria cultural da Amefricanidade. In.: Revista Tempo Brasileiro. Nº 92/93, 68/82 (jan-jun), 1988: p. 69-81.

MUNANGA, Kabengele As facetas de um racismo silenciado. In SCHWARCZ, Lilia Moritz; QUEIROZ, Renato da Silva (orgs.) Raça e diversidade. São Paulo: EDUSP/Estação Ciência, 1996. p. 213/229.

SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis, Vozes, 1988.)